Lembram-se de um brinquedo antigo chamado caleidoscópio? Era uma espécie de óculo pelo qual se espreitava e, ao fundo, apareciam umas formas coloridas num padrão que lembrava um vitral; dava-se uma sacudidela e o padrão, magicamente, mudava completamente. O divertido era a imprevisibilidade das novas configurações que iam surgindo e o fascínio resultava das inúmeras possibilidades.

O mapa político da Europa ao longo dos séculos sempre me lembrou o velho caleidoscópio: um conflito, uma guerra, um acordo ou um casamento alteravam provisoriamente, sempre provisoriamente, as fronteiras e as relações de força. Nos últimos cinquenta anos quis-se construir um novo padrão, colorido e multifacetado, e acreditou-se que o resultado – a União Europeia -,ainda que difícil de conseguir, seria definitivo.

A par das muitas diferenças de línguas, costumes, religiões e culturas, em 2004, George Steiner (George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2006, 55 pp.) reflectia sobre o que, no seu entender, são alguns dos traços identitários comuns às populações e aos modos de viver neste espaço de limites fluidos e imprecisos a que chamamos Europa. A União Europeia, nova construção caleidoscópica, seria capaz de realizar, pela vontade colectiva empenhada, o que as guerras, os casamentos, as invasões e as conquistas jamais tinham conseguido fazer: a unidade no respeito da diferença. O ensaio de Steiner é um exercício optimista destinado a lembrar, e a sublinhar, cinco semelhanças e a entendê-las como estruturais.

Primeira ideia: a Europa fez-se e foi sonhada nas cafetarias e cafés. Quer isto dizer que, desde os finais do século XVIII, e em diversos graus e modalidades, com mais ou menos exclusões (de classe e/ou de género), grande parte das sociabilidades e da vida pública aconteceu nos cafés, esplanadas e pubs. Em torno do café, do chá, do copo de vinho ou da cerveja, a esfera pública, no sentido que Habermas lhe dá, foi-se construindo nos encontros que tanto podiam servir para discutir filosofias, correntes políticas, conspirações, resultados desportivos ou fazer comentários sobre a vida do bairro e discutir a vida alheia.

Segunda ideia: a Europa foi e é percorrida a pé. Somos confrontados diariamente com esta realidade; ainda hoje os campos de refugiados da Itália, da Grécia, da Espanha, dos Balcãs ou em França são pontos de paragem provisória de uma via sacra percorrida em grande parte a pé. A relativa suavidade dos acidentes geográficos sempre convidou à deambulação, à viagem e à peregrinação. Se há paisagem não-natural, resultado milenar deste entrecruzar de caminhos incessantemente percorridos, ela situa-se na Europa. Como poderia a cultura – a linguagem, a retórica, a filosofia, a poesia, a música – não o reflectir?  O pensamento desenvolve-se ao ritmo do andar, a cadência argumentativa (como Sócrates e os seus discípulos demonstraram) depende do passeio em volta da praça e algumas das narrativas da ficção europeia, porventura as mais ricas e interessantes, desenrolam-se no decurso de viagens (de Homero, a Chaucer e a Joyce). Não será por acaso – e Steiner lembra-o bem – que à cadência poética se chama pé (em francês l’enjambement, em inglês poetic feet). A música, por sua vez, tem compassos e as repetições (da capo) destinam-se, tal como na retórica, a consolidar o caminho já percorrido.

Terceira ideia: as cidades e as vilas europeias constroem – de modo quase obsessivo – a memória colectiva. As estátuas e as placas toponímicas celebram grandes homens, grandes feitos, informam sobre nomes, datas, acontecimentos. Ninguém ignora onde fica Trafalgar Square em Londres, a Place Victor Hugo em Paris e em Lisboa todos conhecem a Praça Marquês de Pombal ou a Alameda D. Afonso Henriques. A memória quase se torna pesada não fora o sabermos que ela, saudavelmente, se constrói sempre sobre um império de esquecimentos e que ela é, também, o resultado de leituras, de interpretações e/ou de manipulações. De vez em quando, substitui-se ou destrói-se a estátua, muda-se o nome do monumento ou rebaptiza-se a rua: não importa, o tempo e a nova inscrição construirão uma nova memória.

Quarta ideia: a cultura da Europa é inequivocamente devedora de uma dupla herança cultural, a clássica (greco-romana) e a judaico-cristã. A música, a poesia e o teatro, a matemática, a filosofia, o vocabulário científico e o direito têm a sua origem nas culturas mediterrânicas (que incorporaram as contribuições árabes sobretudo nas ciências). As reflexões sobre a política, a moral, as obrigações da, e com, a pólis, o questionar das relações problemáticas entre a palavra e o mundo, entre o ideal e o real são questões colocadas nesse mundo antigo, milenarmente retrabalhadas pelos pensadores europeus, divulgada e questionada – e reproduzida – nas escolas e universidades. E, independentemente da religião professada ou da sua ausência, toda a cultura europeia transporta em si os vestígios secularizados dos ensinamentos de um Livro que interroga as relações de cada um e da humanidade com a transcendência e com os outros.

Por último, uma quinta ideia indesligável das anteriores: a cultura europeia é profundamente marcada pela consciência de um fim ou, na maneira de dizer de Steiner, pela consciência escatológica. E sim, não poderia ser de outro modo: nas palavras do Livro, Deus criou o mundo a partir do nada. E o nada é um conceito alheio a qualquer outra cultura. Os gregos e os romanos antigos, os hindus e os chineses admitem sempre um caos original e permanente a partir do qual os deuses criam uma certa ordem; após um certo ciclo, cada um e todos nós tornaremos a esse caos original num ciclo infindável de repetições e transformações. O tempo é apenas um intervalo entre cada novo começo e o seu desfecho. Ora, postular a existência de um nada é admitir a existência de um alfa e, evidentemente, de um ómega que dão sentido ao transcurso da existência, individual e/ou colectiva. Claro, podem-se imaginar fins muito diversificados: o paraíso extraterreno, o Quinto Império, a realização do socialismo, a ideia de Europa ou a Federação das Galáxias. Acreditar num deles é a chave da ação e da reflexão sobre o passado, sobre o presente e sobre o futuro, do que se valoriza e do que se repudia. A partir do nada inaugural, a flecha do tempo, linear e ascendente, única e irrepetível, dirige-se necessariamente para um determinado fim, num caminho dialéctico que responsabiliza todos e cada um, porque o ser humano se torna o motor da ação.

No final do ensaio, Steiner recorda-nos que o caleidoscópio não oferece uma imagem fixa. Ainda bem, diria eu! É tempo de nos voltarmos a questionar sobre o sentido da nossa Europa. E se as cinco ideias não são suficientes podem contudo ser um bom ponto de partida para uma reflexão que não seja meramente fundamentada no medo.

 

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