Setembro é um mês de recomeços. Um pouco à semelhança de Janeiro, em que nos comprometemos com um conjunto de resoluções para o ano, Setembro herda da tradição escolar a promessa de reinvenção, de este ano vou ser melhor ou de que algo irá mudar. Seja pela motivação que as férias proporcionam – mais tempo para nós próprios, para os nossos ou para o que realmente gostamos de fazer – seja pelo sunday blues que se faz sentir nos últimos dias antes do regresso ao trabalho, Setembro pode conduzir à (vontade de) mudança – nomeadamente quanto à vida profissional.

Não é novidade que a vida profissional se traduz, para uma grande maioria, num dia-a-dia mais cinzento do que o imaginado. São mais documentos, folhas Excel e e-mails do que o trabalho emocionante e desafiante que se idealizou. São muitas horas passadas – são a grande maioria do dia, enquanto acordados – num lugar diversas vezes pouco familiar, com colegas com os quais não temos afinidade, com cedências, com horas extra e com um trabalho em que não nos revemos. Quantas pessoas não chegarão ao final do dia com a sensação de mas o que é que estou a fazer? É aqui que estarei daqui a 10 anos? Nãããoooo.

Há quem tenha uma epifania e há quem rebente de saturação após meses e anos de insatisfação e de ausência total de perspectivas de evolução. Imagino que seja cada vez mais frequente. Apesar do mercado de trabalho estar progressivamente mais saturado, de forma transversal a várias áreas, o digital e a internet têm aberto diversas portas ao empreendedor, a título individual ou não, e ao freelancer. Estatutos revestidos de um certo romantismo que se torna atraente quando nos encontramos no nosso cubículo cinzento, das nove às seis (ou às sete, às oito…) e imaginamos uma vida diferente.

São muitos os casos de sucesso inspiradores, provavelmente cada vez mais pois o mundo move-se nesse sentido. Não tenho dados mas desconfio que a grande maioria que alcança a vida freelance não a quer deixar, pelo menos passado algum tempo (são muitos os artigos ao redor do consultor com um salário anual de seis dígitos que deixou tudo para criar o bar dos seus sonhos e não o contrário, certo?) mas a realidade é que não é tudo um mar de rosas. Será a vida freelance uma solução (para ti)? Não tem de ser. Não tem de ser para toda a gente. E não faz mal.

 

Freelance, um (pequeno e ligeiro) reality check:
  1. Horários [flexibilidade sim, disponibilidade constante… humm…]. A vida freelance é rapidamente associada à flexibilidade de horários. É um facto: passa-se a trabalhar quando se quer e às horas que se quer mas a realidade é que nem sempre é totalmente controlado por nós, principalmente no início em que se procura criar uma carteira de clientes e se está mais disponível para aceitar trabalhos a horas indecentes, para horas indecentes. Outro aspecto em relação aos horários: a grande maioria dos amigos ou das pessoas próximas continua em trabalhos das 9 às 5. A não ser que te comeces a dar com outros freelancers, não, não terás companhia para uma ida à praia, durante a semana, a meio da tarde. Nem mesmo para um café no jardim a meio da manhã. Está toda a gente ocupada. Por outro lado, é bom apanhar alguns serviços em horários menos concorridos mas a realidade será sempre esta: mais horas na rua durante o dia, mais horas de trabalho mais tarde (quando, provavelmente, o resto do mundo está mais livre e disponível).
  2. Trabalhar em casa [mas os vizinhos passam mesmo o dia todo em casa?]. Quando estamos em casa ao fim-de-semana, ou mesmo de férias, parece-nos o melhor lugar do mundo. Afinal de contas, é a nossa casa, quentinha e confortável, da qual temos saudades durante o dia. É fácil pensarmos que poderíamos ser mais felizes a trabalhar em casa, sem enfrentar trânsito, transportes públicos e poluição, mas… Há uma data de sons que apenas passamos a detectar quando passamos mais tempo em casa [mas a vizinha de cima anda de saltos altos o dia todo em casa?] ou há coisas que passam a acontecer quando se trabalha sozinho ou o trabalho não envolve comunicação oral: apercebes-te de que não falas. A tua mãe liga-te pelas 18h e ouves a tua voz pela primeira vez no dia. Sim, começam a abundar espaços de cowork mas a verdade é que os valores não estão adaptados à realidade do freelancer em início de carreira. Em contrapartida, é mesmo muito bom não ter de sair no Inverno, quando chove torrencialmente lá fora.
  3. As pessoas não respondem [ou quando respondem, respondem todas ao mesmo tempo]. Isto acontece em qualquer situação profissional mas quando se é freelancer pode ser mais complicado (passamos a depender de respostas, respostas são trabalho). Provavelmente até passamos a estar mais dependentes dos outros, das respostas dos outros, ao contrário do que se pensa: do seu interesse no nosso produto, da sua vontade para colaborar, da sua disponibilidade financeira para investir no nosso trabalho. Há respostas que nos prendem, sem as quais não avançamos, e depois há respostas que surgem ao mesmo tempo e que obrigam a uma grande ginástica para responder a tudo – porque queremos responder a tudo, queremos fazer o máximo possível, como dizer que não? E por pegar em não, também há muitos nãos e é preciso estar preparado para isso. É preciso ter um plano B e C, é preciso ser pró-activo, ir atrás e ser insistente. E nada disso, mesmo assim, garante um cliente.
  4. Fins-de-semana e férias [tenho de trabalhar este fim-de-semana, prometo que vou no próximo!]. Há uma coisa que termina quando se começa a trabalhar como freelancer. O sabor da sexta-feira. A sensação de liberdade ao sair do escritório ao final do dia, depois de uma semana de trabalho, com a promessa do fim-de-semana pela frente… Perde-se. Deixam de existir horários, todos os momentos são úteis para trabalhar, para avançar mais um pouco – seja à noite durante a semana, seja ao fim-de-semana ou num suposto período de férias. Convém não cair no exagero, claro, para bem da sanidade mental mas na realidade do freelancer tempo é mesmo dinheiro e decisões outrora levianas (como fins-de-semana e férias que impliquem desligar por completo) tornam-se um pouco mais pesadas. Ter tanto trabalho que se questione a possibilidade de fins-de-semana e férias fora é mesmo muito bom sinal mas sem descanso não há criatividade — ou simples raciocínio — que resista.
  5. Instabilidade-Ansiedade [sim, o seu serviço é mesmo aquilo de que estamos a precisar mas não temos como pagar / qualquer um é capaz de fazer umas traduções, preparar conteúdos ou gerir redes sociais / ah está a pedir uma fortuna]. Dependerá sempre da área em questão, da procura e essencialidade do produto ou serviço mas de um modo geral a vida freelance é mais instável – e não necessariamente apenas nos primeiros tempos, poderá ser constante e é necessária capacidade de adaptação a essa realidade (permanente). Até se pode ganhar bem por cada produto ou serviço, até mesmo mais do que quando a trabalhar por conta de outrem, mas os meses poderão ser todos diferentes e cheios de altos e baixos. Torna-se mais difícil planear a longo prazo [terei trabalho, não terei?] e é necessária uma dose extra de responsabilidade e capacidade de gestão financeira. Há impostos, há seguros, há meses que têm de compensar outros meses e não há subsídios de férias e de Natal para aquela despesa ou viagem. Há muita ansiedade envolvida.

 

A psicologia positiva invade-nos os smartphones diariamente, através das redes sociais, de blogs e de vidas que parecem perfeitas. Somos perseguidos pela necessidade de sair da zona de conforto (pois é aí que a magia acontece), pela importância de tomarmos as rédeas da nossa própria vida (pessoal e profissional), de desenharmos o nosso dia-a-dia, de aprendermos algo novo todos os dias, de nos reinventarmos… E está tudo bem com isso. É realmente verdade, é inspiração. Acho mesmo que devemos procurar ser melhores e que devemos procurar o melhor para nós – e acho que é algo que está nas nossas mãos, não é responsabilidade de mais ninguém e não podemos refilar se não tentarmos. No entanto, as soluções não são iguais para todos e há passos que devem ser bem ponderados antes de dados, nomeadamente ao nível da carreira profissional.

Mas afinal de contas quem sou eu para falar de tudo isto? Já passei pelos diversos estatutos ao longo de vários anos: trabalhadora por conta de outrem, freelancer por iniciativa própria e atualmente trabalhadora por conta de outrem a trabalhar remotamente – até agora, provavelmente, a melhor opção (ainda sob análise). Acho que o futuro será cada vez mais risonho para trabalhadores freelancer – a tendência será essa, serão cada vez mais e mais – mas acho que os países (só conheço o exemplo de Portugal, que provavelmente se encontra atrasado nesta área) ainda não estão muito preparados: os impostos são muito pesados, as empresas ainda não se viram tanto para colaborações freelancer como opção viável (encaram-na como solução quando surge como mais acessível e associam-na sempre a um trabalho mais barato) e há muito desconhecimento generalizado ao redor da realidade freelance – ah, é freelancer, tem imenso tempo livre.

Porém, se é para essa tendência que se caminha o mundo irá, progressivamente, adaptar-se.

 

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