Casa carente procura amigo(a) para programa de 7 dias, total prazer.

Viver numa ilha isolada no meio do atlântico norte tem as contrariedades, principal entre elas… querer ir arejar as ideias a algum sítio que não seja uma ilha isolada no meio do atlântico norte. Viajar daqui para o “continente” (termo generalista utilizado pelos ilhéus para se referir a todos os sítios que não são ilhéus), implica viagens aéreas, muitas vezes dispendiosas, daí imaginem a minha felicidade quando as companhias low-cost começaram a operar de, e para, as ilhas Açorianas.

Foi felicidade de pouca dura, porque quando me meti a “chafurdar” nos motores de busca de hotéis, fiquei chocado com os preços por noite num quarto de hotel em Lisboa. “Publicidade enganosa!” cramei eu para a minha mulher, “a televisão disse-me que o Trivago ia me tornar numa pessoa feliz em vez de um forreta amargurado!”. Dei de caras com um dos principais problemas com o turismo acessível de massas que as passagens aéreas baratas facilitam, o preço dos hotéis sobe proporcionalmente com o aumento da procura. Como um nicho de mercado não continua a ser um nicho por muito tempo, surgiram um sem número de alternativas para o consumidor: hostels; pousadas; e, especialmente, o turismo de habitação. Serviços como o Airbnb, HomeAway ou Tripping,  tiveram um crescimento surreal. No caso da Airbnb, indo de um grupo de amigos a alugar uma sala com 3 colchões de ar em 2007 para uma empresa cotada em 30 biliões de dólares em 2016.

Voltando atrás ao meu sentimento de apatia ao olhar para os preços de hotéis em Lisboa, acabei por ficar um pouco mais feliz ao notar que os continentais iriam invariavelmente pagar na mesma moeda agora que as viagens para os Açores estão a tornar-se mais acessíveis. “Se eu não posso ter umas férias baratas, ninguém, irá ter!”. Contudo, até esse empreendedorismo Californiano percorreu quase 8000 km para chegar ao nosso cantinho remoto, e a oferta de turismo de habitação têm-se multiplicado pelas ilhas.

Photo by Paulo Gomes

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Um desses muitos empreendedores é um tipo chamado Paulo Gomes, que chateado pelo fato de não estar avaliado em 30 biliões, decidiu fazer algo para corrigir essa situação e montou o projeto Porto Martins Bay Apartments na Ilha Terceira, Açores. Com o intuito de saber um pouco mais sobre como a classe trabalhadora funciona (sendo funcionário público, tal facto é um mistério para mim), chateei o tipo até ele me conceder uma entrevista impromptu a meio caminho entre uma jola e um pires de tremoços.

João Pedro Cunha (JPC): Como é que entraste no mercado do turismo de arrendamento local?

Paulo Gomes (PG): Tive conhecimento do arrendamento para turismo através de um amigo meu que tem uma casa de aluguer na Fajã dos Cubres, na ilha de São Jorge (Casa da Arcada) e que estava inscrito no site Airbnb. Quando tive conhecimento desse site, achei o conceito muito interessante, uma vez que já tinha tido a experiência de ficar numa casa e vi que tinha ótimas condições e localização para arrendar as minhas propriedades a turistas. Visto que o turismo está a aumentar nos Açores, vi uma ótima oportunidade para começar um negócio de alojamento.

JPC: Quais foram os principais desafios para montares o teu negócio?

PG: Licenciar um estabelecimento de alojamento local é um processo relativamente simples e rápido, basta ter uma casa ou apartamento ou quartos devidamente equipados e que cumpram com os requisitos da lei (que não são muitos). No meu caso foi um pouco mais complicado porque tinha 2 apartamentos no mesmo edifício que não eram considerados frações autónomas pela câmara municipal (embora na prática fossem) no projecto de raiz do edifício. Como na lei diz “considera-se apartamento o estabelecimento de alojamento local cuja unidade de alojamento é constituída por uma fração autónoma de edifício”, lá tive que contratar um arquitecto que me fizesse um projeto de fracionamento da minha propriedade em 2 frações autónomas. Este processo ainda demorou alguns meses e só após estar concluído é que pude fazer o licenciamento para alojamento local. Acho que ainda existe muita burocracia e os processos devem ser simplificados.

Photo by Paulo Gomes

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JPC: Quais as mais valias do arrendamento local em relação à hotelaria tradicional?

PG: Acho que a ideia que está por detrás do alojamento local é proporcionar às pessoas uma experiência parecida como se estivessem em sua casa, é proporcionar um lar longe do seu lar. A impressão que tenho é que existem cada vez mais pessoas a preferir o alojamento local à hotelaria tradicional porque as pessoas sentem-se mais à vontade numa casa ou apartamento onde podem cozinhar, fazer um churrasco e sentem mais privacidade do que ficar num hotel.

Além disso, as pessoas têm a oportunidade de ver como os locais vivem porque muitas vezes acabam por ir também às compras ao supermercado e fazem a sua vida naqueles dias quase como se vivessem cá, são coisas que os hotéis não proporcionam. Outra grande vantagem é de ser mais barato para férias em família ou em grupos, por exemplo uma família de 4 pessoas quando vai para um hotel geralmente tem que pagar 2 quartos.

JPC: Achas que a hotelaria tradicional e o alojamento local podem conviver pacificamente?

PG: Acho que sim, com o aumento que tem-se vindo a registar no turismo e com a entrada das ligações “low cost” vai haver clientes para todos. É importante diversificar a oferta.

 

Pessoas como o Paulo, são o novo ódio de estimação da Hotelaria, com espaços atrativos e preços competitivos, o turismo de habitação está a ter um impacto enorme no mercado, especialmente na europa onde boa parte da oferta está localizada. Em cidades como Berlim, Madrid, Paris e Viena é frequente os hotéis custarem quase o dobro do que ficar numa propriedade listada no Airbnb.

Claro que nem tudo são vantagens, os hóspedes normalmente têm que prescindir de comodidades como o mini bar, concierge e serviços de limpeza, e muitas proprietários não são fãs de estadias curtas ou horas de “check-in” de madrugada.

Photo by Paulo Gomes

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Se quiserem ajudar o Paulo a ser o próximo bilionário Português, dêem um saltinho à página dele ou à listagem no Airbnb.

 

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