Esta é a pergunta que oiço todos os dias quando digo que estudo Terapia Ocupacional. Venho, no âmbito deste adorável projeto, tentar explicar ao Mundo a profissão que escolhi. Escolhi-a, principalmente, por ser uma profissão de amor, uma profissão de coração, uma profissão de total entrega ao outro e partilha com o mesmo. Escolhi-a porque tenho quase a certeza que vou ser feliz e que não vou ter problemas com segundas-feiras. Escolhi-a porque sempre soube que vim ao Mundo para dar algo aos outros, para melhorar a vida daqueles que me rodeiam e esta é a melhor profissão para isso. Mas afinal, o que é isto de terapia ocupacional?

Todos nós gostamos especialmente de fazer alguma coisa, uns fazem natação, outros cozinham, há também quem valorize as jantaradas entre amigos, há aqueles que gostam de passear e viajar, enfim, poderia estar aqui a enumerar as diversas coisas que cada pessoa faz no seu dia-a-dia, mas nem todas as palavras do Mundo chegariam para o fazer. Depois existem aquelas coisas que todos nós temos de fazer. Tomar banho, andar, lavar os dentes, tudo aquilo que fazemos por ser intrínseco à nossa espécie, por fazer parte da nossa rotina diária. Tudo aquilo que fazemos faz parte de nós. Quer o façamos porque tem de ser ou porque gostamos, tudo isso nos caracteriza, tudo isso dá sentido à nossa vida.

E se nada disso fosse possível? E se uma depressão se apoderasse de ti e te impedisse de sair com os teus amigos? E se a tua avó, ao envelhecer, não fosse capaz de ir às compras como sempre foi? E se a tua irmã mais nova não fosse capaz de brincar como qualquer criança? E se fosses privado de fazer uma atividade que gostas? É aqui que trabalhamos. Valorizamos os interesses, as escolhas e a essência de cada pessoa. Arranjamos estratégias, adaptamos as tarefas, ajudamos a pessoa a nível físico, psicológico e social, de forma a que consiga envolver-se em tudo aquilo que a faz feliz.

Os terapeutas ocupacionais podem trabalhar em qualquer sítio, qualquer sítio em que exista alguém que não consegue realizar aquilo que lhe faz bem, aquilo a que dá valor. O terapeuta ocupacional vai atenuar a angústia vivida por quem se sente inútil, quem é obrigado a abandonar atividades, quem se vê impedido de as realizar. O terapeuta ocupacional vai dar-te a oportunidade de recuperares o sentido da tua vida. E não é incrível que exista uma profissão capaz de fazer isto?

O mais triste é que ninguém saiba que existimos, o mais triste é que continuemos a ser confundidos com outras profissões e que ninguém saiba bem qual é o nosso lugar. Mas isso não faz com que baixemos os braços, continuaremos a espalhar a palavra e a mostrar ao Mundo aquilo que fazemos, continuaremos a espalhar sorrisos através dos nossos conhecimentos e práticas. Nós somos especialistas da ocupação. Não, não vamos ocupar o tempo de ninguém, nem vamos arranjar formas de passares o tempo livre. Isso são ideias erradas sobre quem somos. Vamos sim permitir que faças aquilo que gostas, queres ou precisas e que, de alguma forma, não estás a ser capaz.

Nas aulas que frequentei ao longo deste primeiro ano de curso, uma das professoras mais inspiradoras que já tive falou-nos de um provérbio chinês que diz “Não dê o peixe, ensine a pescar”, de forma a explicar-nos aquilo que devemos fazer no futuro, como terapeutas ocupacionais. Faz tanto sentido que sei que nunca me vou esquecer disto. O mais importante não é dar às pessoas aquilo que elas precisam, não é fazer por elas, mas sim mostrar-lhes que elas são capazes de o fazer sozinhas, arranjar formas para que isso seja possível. Falamos então do poder transformador da ocupação. Ao fazer aquilo que gostam, ao se aperceberem que são capazes, ao se sentirem bem-sucedidas numa determinada ocupação que valorizam, as pessoas automaticamente sentem-se mais motivadas e a sua recuperação é muito mais rápida, algo que está provado cientificamente.

A ocupação tem realmente a capacidade de transformar as pessoas e as suas vidas e o Mundo, em breve, aperceber-se-á disso.

 

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