Mas esta também não é uma história qualquer.

Eu sou Portuguesa e ele é Sueco. Quando a pergunta “onde é que se conheceram?” surge, a resposta é sempre recebida com olhos esbugalhados de curiosidade. Na Índia. Eu e o Oscar conhecemo-nos na praia de Palolem, em Goa. Estávamos os dois a viajar com amigos e eu estava a celebrar o aniversário de um deles. Nessa noite, o Oscar disse-me que estava a planear fazer uma viagem pelo mundo num barco à vela. Uma das paragens era Lisboa.

O interesse foi mútuo, mas ninguém esperava que nos voltássemos a encontrar. Só há pouco tempo descobri o que o Sueco escreveu no Diário de Viagem, na noite em que nos conhecemos: “os beijos dela sabiam a sal e a aventura”. Querem saber um segredo? Os dele também.

Alguns meses depois, o Oscar partiu de Gotemburgo no barco da família para fazer uma viagem pelo mundo com os primos e o irmão. Quis a geografia que Portugal fosse um país de muitos portos e foi em Lisboa que este marinheiro Sueco largou âncora no meu coração. A estadia prevista era de uma semana, mas a tripulação atracou durante um mês na capital portuguesa. Na manhã da despedida, proferi as minhas primeiras palavras em sueco, decoradas à força de ouvir o clip de som no Google Translate: “jag kommer att sakna dig.”vou ter saudades tuas.

Chegado o barco a Sagres, já ambos sabíamos que não tinha sido apenas uma paixão de fim de Verão. Mas havia uma viagem, diferentes culturas e tantos outros mundos a separar-nos. Não nos demos por vencidos. Das Canárias, o Oscar voou até Lisboa para uma visita e começámos a sonhar com um futuro em que a diferença de nacionalidade e de raízes não fizesse diferença.

A próxima etapa era a travessia do Atlântico, com tempestades e falta de comunicação. Mas para isso, o Sueco arranjou solução: uma série de cartas com datas específicas para serem lidas. Cartas enviadas de terra, que eu abria quando ele estivesse no mar. Foram 5 cartas com fotografias, texto e postais, pedaços de informação que me faziam conhecê-lo melhor e apaixonar-me ainda mais.

Enquanto o Inverno se instalava em Portugal, o barco Isidora saltitava entre ilhas nas Caraíbas. Como prenda de Natal, recebi do Oscar uma viagem até Guadaloupe, para o visitar. Foram 5 dias de fugida, divididos entre noites no barco e algumas num hotel, um paraíso e uma espécie de lua-de-mel. Mas ainda havia mais mar para navegar e mais uns meses para esperar. Por força das circunstâncias o capitão do barco descobriu que ia ser pai em vez de atravessarem o Canal do Panamá e continuar a viagem, a tripulação resolveu começar a viagem de regresso a casa. O que significou mais uma travessia do Atlântico e poucas hipóteses de comunicar.

Desta vez, fui eu a escrever cinco cartas quatro com os elementos da natureza e uma última dedicada a ele. Porém, em vez de lhe impôr uma data, decidi que ele abriria as cartas nos dias em que se sentisse mais desanimado ou cansado. A gestão das aberturas ficou do lado dele.

Chegados aos Açores, o Oscar voou para Lisboa. O cheiro de sardinha assada enchia as ruas e a música popular ouvia-se em todo o lado. Decidiu ficar. Vivemos em Lisboa, juntos, durante um ano. Ele a trabalhar em part time e eu a lutar pelos fins de semana para poder mostrar-lhe o meu país.

Para mim, o facto de nunca ter feito Erasmus, na universidade, era uma falha, por isso, quando começámos a discutir a possibilidade de viver na Suécia por uns tempos, não estranhei. Não foi só uma conversa, num dia especial, que decidiu tudo. Foram muitas conversas, muitos sonhos de viagens pelo mundo e muitos conselhos da família e amigos. A verdade é que eu sempre soube que a nossa vida juntos seria sempre dividida entre os dois países. Agora estamos na Suécia mas um dia havemos de voltar a viver em Portugal. Por enquanto, pertencemos ao mundo.

Escrevo isto, enquanto espero pelo primeiro de três aviões que me vão levar até ele. E o que vos posso dizer é que, enquanto o amar assim, vou continuar a apanhar os aviões que forem necessários… sempre com um sorriso nos lábios.

 

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