Casa. O que é casa? O sítio onde crescemos? O quarto que partilhamos com a nossa irmã? O colo da nossa mãe? A laranjeira no pomar dos nossos avós? Uma cidade inteira ou um quartinho alugado numa casa cheia de gente? São paredes e um tecto, janelas e canalização mas isso é só parte. É principalmente aquela sensação meio indefinível de ser como que abraçada enquanto fechamos o resto do mundo lá fora. É saber ao que vai cheirar, qual a tábua que range, que luz não acende, qual o truque para ligar o esquentador e em que janela bate primeiro o sol.

Adoro a minha casa. Depois de anos a partilhar esta é a minha primeira casa-só-para-mim. Quem procura casa com um orçamento limitado sabe as coisas terríveis que estão por aí para alugar e o tempo e sorte que são precisos para encontrar algo que gostamos e podemos pagar. Adorei a minha casa mal entrei. Tinha a energia certa e mesmo só com uma cama e um frigorífico não queria de lá sair. Passaram mais de três anos e gosto cada vez mais dela. É verdade que é demasiado quente no verão e demasiado fria no inverno, e que tem uma janela esquisita na cozinha, e que nem sequer está num daqueles bairros em que sempre quis morar, e que uma vez lá cheguei e tinha um morcego no quarto, já para não falar das baratas que aparecem de vez em quando e que o vizinho do lado vê televisão com o volume no máximo, mas adoro-a. E cada vez mais. Uma boa casa é como uma boa relação. Cresce connosco. Acho que as casas são mágicas por isso. Não são só cenário, fazem parte da peça. Relacionamo-nos com as nossas casas tal como com as pessoas que lá estão dentro e se tivermos sorte e fizermos por isso o amor cresce e fortalece.

Casa é conforto. Segurança. Aconchego. É onde vestimos o pijama. Onde há sempre as nossas bolachas preferidas. Onde fazemos a árvore de natal. É onde jantamos no sofá ou enchemos a mesa de amigos. É onde podemos cozinhar descalços, cantar terrivelmente no banho e dançar pela casa de cuecas. É para onde voltamos quando regressamos de férias. É onde nos refugiamos nos dias maus e vivemos alguns dos melhores. É onde podemos ver todos os programas embaraçosos que quisermos e encomendar chinês para três mesmo sendo só para um. É onde curamos gripes, ressacas e desgostos e rimos até chorar. É onde guardamos os nossos livros e penduramos fotos. A nossa casa somos nós.

O meu sonho quando era pequena, posto por escrito várias vezes em composições da escola primária era muito específico: viver com a Ritinha num apartamento em frente à feira popular. Já não há feira popular e não vivo com a Ritinha mas consegui os meus 55m2 de felicidade. Sou agora uma daquelas luzinhas que via ao longe sentada no banco de trás do carro dos meus avós a regressar de alguma viagem e este é um dos meus pensamentos preferidos. Adoro adormecer e saber que há todo um prédio à minha volta, outras caixinhas com outras pessoas e que por toda a cidade há crianças a serem aconchegadas em camas pequeninas, casais a conversar na cama, outros a adormecer no sofá, há pessoas a lavar os dentes, outros a regressar de passear o cão ou a sair para trabalhar e que todos são uma dessas luzinhas, tal como eu.

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.