Recebi, do gabinete do Vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, um convite para a inauguração da escultura de homenagem a Álvaro Guerra, realizada no sábado passado. Não sei se sou capaz de descrever a sensação de receber um convite inesperado para uma homenagem que ignoramos a um homem de quem temos a sensação de desconhecer os feitos homenageados e a quem apenas associamos as palavras “colo”, “barba” e “aeroporto”.

Aceitei convencida de que conhecia a parte da história deste homem que foi homenageada no sábado; a parte que produziu mais de uma dezena de livros que tenho, alinhadinhos cronologicamente, na estante do meu quarto, em casa dos meus pais.

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Outra surpresa foi chegar a Vila Franca de Xira e a cidade parecer-me tão grande. A última vez que a visitei foi para ir ao funeral deste homem que agora para sempre ali ficará forjado em metal e assente em pedra, a mirar o Tejo. Tinha 12 anos.

Surpreendente, também, foi ver a multidão que ouvia o Presidente da Câmara da cidade a falar daquele “vila-franquense ilustre, cidadão do Mundo” junto à nova Fábrica das Palavras, que aquele homem de discurso naïf descreveu como “a sua Biblioteca” – dele, do Álvaro Guerra.

Ainda mais inesperado foi conhecer as pessoas que compunham a multidão e confirmar que aquele eventos se fez mais pelo Homem do que pela Cidade. Não, não estava à espera. Ouvi-o ser descrito como “um Homem inteiro”, “lutador”, “sonhador”, “pensador”, “um cavalheiro, sempre delicado na forma, mas absolutamente contundente e certeiro no pensamento, nos objetivos e nas convicções”, “um Homem da Liberdade, da Cultura, da intervenção cívica”. E pensei: não faço ideia se tudo isto é verdade, não tive oportunidade de saber.

Além dos livros que escreveu, sei que o meu avô esteve na Guerra Colonial, sei que se exilou em Paris e estudou na Sorbonne, que foi jornalista e fundou um jornal, que foi um dos fundadores do Partido Socialista, diretor de informação da RTP, assessor do presidente Ramalho Eanes e diplomata por todo o mundo. Mas do seu carácter sei apenas que sorria, observava e que era uma presença sempre ausente. Como agora, falecido, presumo que seja para toda a gente.

Recebi, do gabinete do Vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, um convite para a inauguração da escultura de homenagem ao meu avô Manel, realizada no sábado passado. A manhã estava húmida e escura e, por entre a multidão curiosa, vi-o, na posição em que todos o lembramos por estar impressa na contracapa dos seus livros. Enchi-me de um orgulho infantil que dias depois ainda não compreendo.

Fui apresentada ao António, o autor da escultura, mais conhecido por ser o cartoonista político do Expresso, e contaram-me a seguinte rábula: no dia de uma das tentativas frustradas de golpe de estado, conhecido como o Levantamento das Caldas, a 16 de março de 1974, o cartoonista entregou um desenho que previa a Revolução ao vespertino República, onde o meu avô Manel era jornalista. Teria assinado com um rabisco. Na redação ouviu-se que não podia ser, que não se sabia quem era o artista e, o meu avô Manel terá dito: “eu conheço-o, chama-se António”. E assim assina António até hoje. E assim assinou António a estátua que fez do Manel.

 

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