Ambivanalência.s.f.Ambiguidade de sentimentos que se prende com o desejo de inserção de um objeto sexual ânus arriba e concomitante avaliação de risco da atividade.”

Ó ambivalência. Eles às vezes querem, nós às vezes até queremos e, provavelmente, às primeiras tentativas dissemos “ai, tira, tira, tira!” (e talvez até tenhamos ficado só por essas). Na verdade, parte das mulheres que experimenta sexo anal não o repete por ser demasiado doloroso, apesar de o xHamster o apresentar como ato singelo, de execução fácil. A realidade: as primeiras experiências de sexo anal, caso seja possível tolerar a dor, parecem assemelhar-se ao ato de defecar. Francamente, por momentos, até parece que é efetivamente isso que está a acontecer – incidente cujo desfecho possível é o da expressão de um sonoro “Sai, sai, SAAAAI!” Bom, ultrapassando a dor lancinante e a perceção de descontrolo esfincteriano há, ainda, que suplantar o medo da porcaria. Pois é, todos sabemos o que lá vamos encontrar. Cocó. Merda. Fezes. Como queiram. Eu diria que ninguém deseja, realmente, o contacto com a imundice humana – com exceção para os coprófilos, com preferências sexuais nesse sentido (sim, com fezes), e de alguns (bizarros) artistas plásticos – mas quando toca a invadir o seu canal de excreção abrimos uma prerrogativa (alguns de nós, pelo menos). Porquê?

As razões pelas quais os homens o procuram parecem bem fáceis de entender, afinal é um lugar que se avizinha apertadinho e prazeroso. Além disso, décadas de visualização de pornografia culminam necessariamente na fantasia delirante de que a mulher está sempre pronta e desejando ser por ali trespassada.Já a motivação e persistência feminina no ato aparenta maior complexidade. Apesar de a maioria das mulheres (79%) relatar a sua primeira experiência de sexo anal como dolorosa, de acordo com o estudo Croata de Stulhofer e Ajduvic (2013), afirmam também que a intensidade e duração da dor ou desconforto diminuem substancialmente com o tempo. Apesar de menos de 1/3 das mulheres estudadas afirmarem que raramente ou nunca experienciaram dor/desconforto, 58% das mulheres que o praticam reportam-no como muito excitante e prazeroso… A-ha! Então há um propósito no meio de tudo isto: a possibilidade de prazer simples ou, pelo menos, sem desconforto, ou do prazer pela erotização da dor. Elaborei o manual abaixo para minimizar contrariedades no ato:

Advertência: Ninguém deve fazer nada que não deseje efetivamente. Para aqueles sem afetos positivos para com a atividade resta a comunicação assertiva com os parceiros e a fruição do sexo como bem entenderem. Felizmente há muito a explorar.

 

Manual para principiantes

Se a ideia de contacto com dejetos retais e subsequente contágio vos atemoriza podem recorrer a um laxante ou efetuar uma limpeza com um enema.Devem utilizar preservativo, uma vez que é uma boa forma de evitar a contaminação por bactérias. Nunca, mesmo nunca, retirem o pénis (ou o que for) do interior de ânus e voltem a colocá-lo em qualquer outro orifício, pois muito facilmente dará direito a infeção.

Há que tratar a analidade com a cortesia proporcionada à virgindade mas aproveitando os conhecimentos adquiridos com a nossa Estória Sexual. E o que retiramos de mais importante? É que não há coito sem vontade. Para os homens isto é fácil de compreender porque a biologia lhes dá pistas óbvias, nomeadamente a afluência sanguínea tumescente que implode do pénis a parece conferir-lhe estrutura óssea. Já os indícios de frenesi feminino são somente visíveis da primeira fila, apesar de facilmente discerníveis através do tato. Portanto, idealmente, a penetração anal ocorre num momento de grande excitação sexual.O que fazer se esta prática for desejada mas não necessariamente acompanhada de lubrificação au naturelem barda? Lubrificante à base de siliconee não à base de água, que tendem a desaparecer no vai e vem. Não falha, prometo.

 

Manual para iniciados

“Entrou? Então sai”. Errado. A entrada ânus acima pode ser desconfortável ou dolorosa mas a sua saída é mil vezes pior. É um momento Twilight Zone em que julgamos ter regredido ao tempo em que usámos fraldas. E ainda por cima dói. É possível que esta prática só se torne absolutamente confortável após algumas tentativas, se é que tal alguma vez ocorrerá. A melhor opção para a tornarem tolerável é efetuarem a inserção apenas até onde conseguirem e, em vez de grandes patifarias, limitem-se a movimentos curtos, sem grande amplitude e, sobretudo, comuniquem! Se vos for somente viável inserirem a porção inicial, por motivos de desconforto maior, é isso mesmo que devem fazer. Talvez de próxima já vez seja possível mais um centímetro. Já vi razões piores para tatuar uma régua no local.

 

Manual para avançados

Quando a prática de sexo anal se dá espontaneamente e os níveis de ambivanalência são já risíveis, só tenho uma dica:nunca mas mesmo nunca praticar sexo anal e ingerir mexicano genuíno, nessa ordem, a não ser que queiram promover a autocombustão espontânea com foco de ignição esfincteriano. Quem diz mexicano diz qualquer coisa picante e clandestina lá para os lados do Martim Moniz que a vossa herança genética seja incapaz de metabolizar e obrigue à expulsão célere. E ardente.

 

That’sallfolks!

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.