Tal como comigo os nossos pais não quiseram saber se era menino ou menina. A ideia era ser uma surpresa e para mim, que já tinha tudo decidido, certamente foi. Ia ter um irmão e ele ia chamar-se Cristiano, ideia que até hoje ninguém sabe de onde veio.

Quando o meu pai chegou da maternidade e me comunicou que afinal era uma menina eu não reagi bem (nunca gostei muito de ser contrariada). Claro que aos três anos não podia saber que a culpa era efectiva e geneticamente dele mas fiquei tão zangada que virei costas e fugi para casa dos meus avós, decidida a não regressar enquanto não me trouxessem o Cristiano.

Trouxeram-me uma Sara surpreendentemente loira numa família em que todos somos morenos e acho que nunca mais pensei em Cristiano nenhum. Fiz o que se esperava de uma irmã mais velha. Protegi-a e adorei-a enquanto era um bébézinho, aproveitei-me um pouco dela enquanto crescíamos, chantageei-a um número razoável de vezes para me deixar ficar com a barbie dela e ignorei-a – como tinha que ser – nas minhas festas de anos. Mas sempre nos demos bem. Aliás, pensando em algumas histórias que conheço, envolvendo atiçadores de lareira e garfos espetados na perna, sempre nos demos incrivelmente bem.

Um irmão é uma coisa mágica. É difícil explicar o que significa ter alguém que cresceu connosco nas mesmas circunstâncias que nós. É difícil explicar a segurança e a estabilidade que isso dá, saber que há alguém que sabe exactamente quem somos, o que somos e até porque o somos.

Não há relação mais segura. Um irmão é coisa tua, da mesma maneira que tu és dele. É uma daquelas verdades inabaláveis e incontestáveis em relação às quais até nos podemos distrair um bocado, não faz mal, continua lá do mesmo jeito. Não interessa se não falam há três semanas e se não sabe tudo sobre a tua vida porque, na verdade, sabe tudo sobre ti.

Um irmão partilha um sem fim de memórias connosco, de ocasiões especiais e férias na praia, mas principalmente do dia-a-dia. Da normalidade dos dias. Das verdades da vida, as boas e as más. De crescer naquela casa, discutir por causa de uma camisola, passar tardes aborrecidas quando as férias de verão parecem intermináveis. Ser feliz, ter medo, estar doente, crescer.

Um irmão ensina-nos muita coisa só por existir e talvez a principal seja esta noção de lealdade implacável e impermeável a quase tudo. Ou o que de melhor e mais bonito há em ser família sem todas as coisas menos boas que isso também pode significar.

Há irmãos que não se dão bem, eu sei. Nós damos e isso é fácil porque a minha irmã é maravilhosa. É uma das melhores pessoas que conheço e a única em quem confio como em mim. É incrivelmente inteligente e adoravelmente parva e uma das minhas companhias preferidas. E sim, somos irmãs porque temos o mesmo sangue mas, principalmente, somos irmãs por tudo o resto. Ela nunca me chamou Sofia, sempre “mana”. Quando me apresenta a alguém é sempre “a minha irmã” e há muito pouca coisa que me faça feliz assim, como ser a irmã da Sara.

 

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