Cheira a canela e a tangerinas.

Por todo o lado se acendem luzinhas, se enfeitam casas e janelas. Está frio. Apertamos os casacos até cima, esfregamos as mãos uma na outra e enterramo-las bem fundo nos bolsos. Há botas enlameadas deixadas à entrada de casa e música sempre a tocar.

Queixamo-nos da azáfama, das filas e das confusões, deixamos tudo para o último dia, tal como sempre foi. Corremos para chegar a tempo, descobrimos a prenda perfeita, marcamos mesa, coordenamos agendas. Fazemos tempo.

Há vinho quente, lençóis de flanela e pijamas especiais. Acendemos velas, trazemos pinhas e pinheiros. Saímos para ver as luzes de natal, o frio gela-nos a cara e pinta-nos as bochechas de cor de rosa. Comemos castanhas assadas e bebemos chocolate. Crianças sonham com o pai natal e com os presentes debaixo da árvore. Contamos os dias.

Preparamos embrulhos e carinhos pela noite dentro, o tempo multiplica-se, descansamos depois. Ligamos a quem está longe, pensamos em coisas bonitas para dizer. Revivemos tradições e criamos novas. Vemos aquele filme que vemos sempre e adormecemos embalados pelas luzes da árvore de natal.

Orquestras afinam os instrumentos, preparam-se espectáculos e inundam-se as igrejas de coros e de cânticos. Lembramo-nos de quem não está, sonhamos com quem queremos. Contamos os lugares à mesa, fazemos contas à vida e ao ano que passou. Lembramo-nos do que importa. Às vezes choramos.

Compramos bilhetes de avião, pedimos bancos emprestados e improvisamos camas. O forno está sempre ligado e o ar impregnado de açúcar. Usamos aquela loiça especial, a toalha mais bonita, decoramos a mesa. Planeamos ementas e pensamos em receitas novas para juntar às de sempre.

Descascamos nozes, comemos bolo rei ao pequeno almoço. Usamos camisolas de lã e meias grossas e o mundo começa a abrandar. Partilhamos a mesa e a noite, contamos novidades e as mesmas histórias de sempre. Sentamos crianças no colo, seguramos mãos enrugadas, beijamo-nos.

O ano aproxima-se do fim e está quase na altura de começar tudo de novo mas por agora temos tempo. É a noite mais longa do ano.  E é natal.

 

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