Alguém se recorda do desafio a que me propus há uns tempos?30 dias sem ingerir açúcar – açúcar adicionado (como em bolos, bolachas, tostas, tostinhas, entre outros) e adoçantes naturais (como mel) – ficando de fora os alimentos com açúcar naturalmente presente, como a fruta. O objectivo? Perceber qual a reacção do meu organismo, qual o efeito no meu humor/disposição geral e qual o impacto no meu dia-a-dia.Pois bem: despedi-me do açúcar com duas fatias de bolo de canela da minha Avó e passei a estar muito atenta a todo e cada rótulo.

Um mês depois: desafio cumprido com quase-quase-distinção. Os meus amigos e família são testemunha, recusei as mais diversas iguarias na sua presença ao longo de um mês – mas tive um momento de fracasso completamente não intencional. Recorri ao Cabify para uma viagem em Lisboa, creio que a meio do mês de desafio, e num momento de distracção total aceitei o rebuçado que costumam oferecer em cada viagem. Confesso que foi o único momento de devaneio – que me deixou, no entanto, bastante aborrecida pois nemsou grande adepta de rebuçados (mais valia ter-me perdido por algo maisdecadente).

Mas voltando ao desafio: destaco três principais “dificuldades” ao nível do impacto no meu dia-a-dia, presas com a ausência de conhecimento de soluções paralelas, falta de preparação (no sentido de prevenção) e momentos sociais. Elaborando:

  • Ausência de conhecimento de soluções paralelas: o açúcar está mesmo amplamente presente na nossa alimentação e não foi fácil (no sentido de choque) perceber, por exemplo, no primeiro pequeno-almoço em pleno desafio que o simples pão ou iogurte do dia-a-dia (mesmo os biológicos) continham açúcar. Sabia-o vagamente, mas nunca tinha visto os rótulos com muita atenção. Resultado:o meu pequeno-almoço desse dia foram bananas (que também têm açúcar, contudo naturalmente presente, não adicionado). Solução: rumar ao supermercado em busca de soluções de pequeno-almoço livres de açúcar (já preparadas, como pão, ou para preparar em casa, como aveia para granola).
  • Falta de preparação (e apetites repentinos): esta “dificuldade” relaciona-se bastante com a anterior. Tenho tendência a fazer diversas refeições ao longo do dia, lanchinhos aqui e ali, e por vezes passo por aquele momento em que “não tenho nada em casa” ou “não coloquei nada decente na mala” e só há aquelas bolachas de chocolate que o meu better half insiste em comprar ou cafés e pastelarias com bolos e salgados pouco aconselháveis nas redondezas. Solução: ter sempre, mesmo sempre, snacks saudáveis em casa (prontos ou congelados) e não sair de casa sem snacks saudáveis transportáveis na mala (como frutos secos, que são grandes aliados: saciam rapidamente e são nutritivos).
  • Momentos sociais: quando estamos com amigos ou família queremos aproveitar o momento. Bebemos mais um copo, servimo-nos uma segunda vez, provamos o bolo daquela amiga ou a tarte da nossa irmã, talvez até ambos. Estamos felizes e queremos desfrutar da vida. Não há nada de errado nisso, mais disso para toda a gente – mas creio que foi aí que senti maior dificuldade. A minha postura: não sou pessoa de extremos e fora do desafio tenho vivido em equilíbrio. Se no dia-a-dia tenho uma alimentação nutritiva (além de ser fisicamente ativa) não vejo porque não me deixar levar num momento de felicidade gastronómica aqui e ali, sem exageros.

Duas ressalvas quanto ao ponto anterior: (i) é possível ser-se gastronomicamente feliz com opções saudáveis – o saudável, além de nutritivo, é e pode ser delicioso, saciante e fulfilling (no sentido em que concede a satisfação e conforto que se procura, por vezes, em doces); (ii) o corpo desabitua-se, mesmo, do açúcar e vai “pedindo” cada vez mesmo. É um vício, como outro qualquer. Nesse sentido, a primeira semana do desafio foi a mais custosa – pela falta de preparação e “saudades” de uma sobremesa ao fim-de-semana – mas, entretanto, o corpo habituou-se econfesso que no dia-a-dia nem me lembrava (exceto em momentos a dois ou sociais, como mencionei acima).

Como referi no primeiro artigo não tinha o hábito de consumir açúcar numa base diária, antes do desafio, e provavelmente foi fácil para o meu organismo adaptar-se à ausência de um estímulo doce aqui e ali – até começar “a pedir menos”. Em termos físicos não notei diferenças significativas. Sei, por exemplo, que se evitar chocolate fico com uma pele mais bonita e provavelmente aplica-se a tudo o que tenha açúcar na base – mas no meu caso é apenas mais notório com o chocolate. Ao nível do humor, ou disposição em geral: tirando a frustração dos primeiros dias, de não ter opções de substituição à mão, só posso assinalar que é gratificante sentir que cuido melhor de mim.

O desafio causou curiosidade junto de dois grupos distintos do meu círculo de contactos no Facebook: pessoas cada vez mais interessadas em assumir hábitos de alimentação saudável numa base constante, em busca de soluções paralelas; e pessoas completamente incrédulas com a capacidade (ou seria possibilidade?) de se passar tanto (tanto?) tempo sem consumir açúcar – o que confirma que o açúcar refinado está presente numa base diária, por vezes mais do que uma vez ao dia, na vida de muitas pessoas. É fruto das tendências de consumo das últimas décadas, mas pode ser combatido – vai-se a tempo em qualquer idade – sem ser associado a uma alimentação triste e sem graça.

Pelo contrário! Conheçam algumas sugestões irresistíveis aqui:

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.