Há cerca de sete anos inscrevi-me nas aulas de Kendo num pequeno grupo em Leiria que, agora cresceu e tornou-se no Clube Kendo de Leiria. Apesar do meu percurso ter sido passageiro, o Kendo parece ter deixado algum impacto em mim e espero um dia voltar a praticar. Por essa mesma razão e por ser um objeto de reflexão para mim, o Kendo ainda faz parte da minha vida e por isso, partilho hoje convosco o meu gosto por esta arte marcial que tanto tem para oferecer a cada um de nós!

O kendo ou “via do sabre”, como é literalmente traduzido é uma arte marcial japonesa desenvolvida a partir de técnicas tradicionais de combate com espadas – Kenjutsu. Esta técnica era praticada pelos samurais, soldados da aristocracia japonesa que viviam segundo o Bushido (“caminho do guerreiro”) – conceito que depreende um código moral de conduta e modo de vida. O caminho, em si, tem origem num código moral que combina frugalidade, fidelidade, mestria das artes marciais e honra até à morte. Nitobe descreve o Bushido como um “código de princípios morais, no qual o samurai é requerido ou instruído a observar”.

A arte moderna do kendo, hoje praticada, é uma evolução da técnica e pensamento levado a cabo pelos samurais nos campos de batalha. Isto é, quando no período Tokugawa o Japão encontrou um período de estabilidade e paz, as artes marciais, incluindo o Kenjutsu, adquiriram um novo sentido. Sem mais guerras para travar, as artes militares passaram a ser estudadas como métodos de auto-desenvolvimento, com um acresce estético e espiritual. É nesta altura, que o Kendo faz os seus primeiros passos e a sua raiz, é simbolicamente referida quando Naganuma Shiro propõe num treino de Kenjutsu  o uso de uma espada de bambu, o shinai. Deixando de ser visto como uma técnica de combate, o Kenjutsu passava a ser encarado como uma arte de defesa.

Mas, no século XIX, depois de séculos de isolamento (Sakoku) e com a chegada do comandante Perry ao Japão, o país revelou-se antiquado e ultrapassado em termos bélicos, em relação às nações do Oeste. E se, de alguma forma, o isolamento perante o resto do mundo fora um meio para as artes marciais se poderem transformar em ricas e fascinantes antiguidades guerreiras, com os seus rituais simbólicos e espirituais, elas não tinham hipótese frente ao poder devastador das nações estrangeiras, que devassavam as suas costas com canhões e armas de fogo. A Restauração Meiji que se seguiu, pôs termo ao xogunato (titulo e distinção militar dos samurais) e levou a uma restruturação do país, recriando-o com base nas últimas tecnologias e noções provenientes do Ocidente. As artes marciais, como o Kenjutsu, caíram em desuso, devido à perceção dos japoneses da sua impraticabilidade perante o futuro que se avizinhava.

Felizmente, hoje em dia, ainda são muitas as escolas, tanto no Japão como no resto do mundo, que incentivam a prática de artes marciais. E mesmo que o Kendo tenha sofrido algumas alterações ao longo do tempo, o seu espirito e técnicas de luta permanecem intocadas pelo tempo.

Na sua essência, o Kendo é muito mais do que uma mera aprendizagem de técnicas de combate. É, também, nas palavras da All Japan Kendo Federation, “um caminho para disciplinar o carácter do Homem através da aplicação dos princípios da Katana”. Segundo a federação, o Kendo propõe-se a:

Moldar a mente e o corpo.

Cultivar um espirito vigoroso,

E através de um treino correto e rigoroso,

Aspirar ao aperfeiçoamento na arte do Kendo.

Valorizar a cortesia e a honra.

Relacionar-se com os outros de modo sincero.

E procurar aperfeiçoar-se constantemente.

Assim será capaz

De amar o seu país e sociedade;

De contribuir para o desenvolvimento da cultura;

E de promover a paz e a prosperidade entre todos os povos.

Por estas mesmas razões, a prática de Kendo é muito mais do que um simples desporto ou arte marcial, devendo ser encarado como um estilo de vida que apresenta um leque vasto de benefícios para a saúde e bem-estar de cada um de nós, melhorando a nossa:

  • Concentração
  • Confiança
  • Capacidade de resolução de problemas
  • Motivação
  • Educação para a auto-superação.

O ensino do Kendo passa, também, pela transmissão de um código de etiqueta que se prende com o reforço de valores como respeito, cortesia, persistência, entreajuda, coragem, resiliência e paciência.

O Kendo possui, igualmente, fins terapêuticos, podendo ajudar a:

  • Reduzir o stress
  • Corrigir problemas da coluna
  • Dores cervicais e lombares (­causadas pela má postura e por uma vida sedentária)
  • Ter capacidade de eliminar toxinas e outras substâncias nocivas ao nosso corpo, acelerando as funções metabólicas do nosso organismo e ajudando a aumentar a energia vital – energia chi.

Desta forma, a prática de artes marciais resulta numa série de vantagens para o nosso bem-estar seja a nível físico, mental, emocional ou espiritual.

Se ficaste curioso(a), clica para saberes mais sobre esta arte de combate. E, se de alguma forma o Kendo captou a tua atenção, não hesites em ir ao seu encontro!

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.