Vivemos focados em nós próprios, nas nossas vidas, nas nossas famílias, nos nossos amigos e no nosso trabalho. Emocionamo-nos quando vemos uma reportagem na televisão sobre alguém que teve menos sorte do que nós, mas quando começa a novela, já esquecemos a história que nos tinha tocado. E se por momentos olhássemos para o que nos rodeia? Se dessemos um pouco do nosso precioso tempo aos outros?

Foi com esta vontade que decidi ir fazer voluntariado. Há muito que o queria fazer, mas faltava tempo, faltava disponibilidade, faltava um sítio onde o fazer, faltava sempre alguma coisa, ou então, tudo isso não passavam de desculpas precisamente por viver demasiado focada em mim mesma.

Mas este Verão isso mudou e decidi abdicar de duas semanas das minhas férias para fazer voluntariado com crianças com necessidades educativas especiais. Passei duas semanas numa colónia de férias para crianças com um olhar especial. O desafio era fazer crianças com Perturbações do Espetro do Autismo, com Paralisia Cerebral e com tantos outras síndromes, cujos nomes pouco ou nada importam, jogar futebol, nadar, dançar e, acima de tudo, brincar!

Brincar é aquilo que qualquer criança deve fazer, pois é essencial para a aquisição de imensas competências que as crianças precisam de adquirir; é através do brincar que a criança explora o meio e o Mundo à sua volta. Quem já sabe o que é terapia ocupacional, sabe que esta colónia estava em tudo relacionada com os ideais da profissão, embora não o fosse diretamente. Só por aí, posso dizer que parti para este desafio totalmente entusiasmada!

O horário era duro e os dias pediam praia, mas posso dizer que foi a melhor experiência do meu Verão e uma das melhores da minha vida. No primeiro dia os nervos eram bastantes e o medo de falhar corroía-me. Talvez não tenha sido só no primeiro dia, pois a responsabilidade era enorme e os desafios constantes.

O dia começava com a despedida dos pais. Tal como para qualquer criança, este não era um momento fácil e, por vezes, a primeira birra do dia surgia aqui. Mas era só a primeira! Ao longo do dia surgiam muitas mais relacionadas com as refeições, com as idas à casa-de-banho e, pior, sem qualquer motivo aparente. Nestes momentos sentia-me perdida. Mas porquê? Porque é que ele me bateu? Onde é que eu errei? Porque é que ele está a chorar se ainda agora estávamos os dois a cantar e ele parecia feliz? Muitas interrogações surgiam na minha cabeça, mas os dias iam passando e era preciso continuar a dar àquelas crianças tudo aquilo que elas merecem. Oportunidades para brincar, oportunidades para saltar, correr e ser feliz como qualquer criança deve ser.

Muitas vezes é isso que falta, falta estimular estas crianças, falta dar-lhes um pouco do nosso tempo, falta ter paciência para elas, falta perceber que merecem oportunidades. Espero que este texto possa servir para vos alertar para isto: antes de terem qualquer tipo de doença, são crianças. Olhem sempre para elas como isso mesmo, crianças. Conseguem brincar, conseguem comunicar, conseguem ser adoráveis como qualquer outra criança, é preciso apenas algum tempo para conseguir cativá-las, mas elas não merecem que desistamos delas.

Posso dizer, sem tabus, que houve momentos em que tive medo. Sim, algumas destas crianças faziam birras que me assustavam, tinham comportamentos agressivos que me deixavam desconfortável e com medo de chegar a elas. Mas rapidamente percebi que se deixasse que esse medo se apoderasse de mim iria cortar qualquer tipo de ligação que poderia vir a ser estabelecida com aquelas crianças, eu iria impedir uma série de bons momentos que poderíamos passar juntos e, acima de tudo, eu estaria a ser injusta com elas, pois todos nós somos muito mais do que os nossos maus momentos e as nossas más atitudes.

Permiti-me brincar, abraçar, dar beijinhos, cantar, dançar, saltar. Permiti-me estar genuinamente com elas, sem pensar em algo mau que poderia vir a acontecer. E quando aconteceu, estavam lá as coordenadoras da colónia e todos os meus colegas monitores para me ajudarem e ensinarem a lidar com a situação. Aprendi tanto! Sinto mesmo que foi essencial no meu percurso académico poder ter esta experiência, ao ponto de ter ficado tão fascinada com a área das crianças, que talvez seja uma opção no meu próximo estágio.

Trago comigo os sorrisos, os abraços, os beijinhos e as canções. Trago comigo as lágrimas nos rostos das Mães a agradecerem-nos por termos feito os seus filhos felizes nestas duas semanas. Confirmei, mais uma vez, que a diferença não é impedimento para nada e que crianças serão sempre crianças, independentemente da sua condição.

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.