“Tens de te animar!”

“Vamos beber uns copos no Sábado e isso passa-te!”

“Vais ver que depois de chorares tudo, ficas bem…”

“Não podes estar assim, tens de reagir!”

Em Setembro de 2015, depois de ouvir dezenas destes comentários e outros semelhantes, entrei num consultório médico e disse-lhe “Achava que estava só profundamente triste, mas afinal acho que estou doente.”. Demorei alguns meses a aperceber-me disso (ou a fingir que não estava a acontecer), mas a verdade é que não dormia, não comia e o bater do meu coração incomodava-me por ser tão rápido. Não faltei um único dia ao trabalho, mas a concentração era mínima (não só pelo que se passava na minha cabeça, mas também porque me alimentava muito mal) e os erros eram constantes.

Quando o médico me perguntou o que se passava comigo, tive vergonha de lhe dizer que a minha relação amorosa de vários anos tinha chegado ao fim de forma inesperada e que, desde então, o meu mundo tinha desabado. Eu, que me achava forte, independente, focada, madura… De repente olhava-me ao espelho e ele devolvia-me uma miúda com 43 quilos, o coração a querer saltar do peito a qualquer momento e umas olheiras sem fim. Durante algumas semanas achei legítimo sentir-me triste, mas passados alguns meses comecei a achar que ninguém podia estar tão triste tanto tempo! À minha volta, amigos e família faziam o que podiam para me ajudar, mas uma pergunta ecoou na minha cabeça: E se eu estivesse doente?

Saí do consultório com uma receita médica e um diagnóstico claro: depressão. Não chorei; não me assustei; não tive vergonha. Pelo contrário! Saber que a solução estava ali deixou-me aliviada e com esperança de que rapidamente me sentisse bem. Quando voltei ao médico, e depois de ter lido muitas coisas sobre o tema (culpa do Google!), levava uma lista de questões que queria colocar, principalmente no que respeitava à possibilidade de adição à medicação. Nunca escondi de ninguém o que se estava a passar comigo e foi a partir daí que descobri quão desinformados estamos em relação à doença mental. Da desvalorização ao preconceito, a doença mental não é vista como outra doença qualquer (tão real quanto um cancro!) e é repugnada até com sentimentos de medo.

Em 2017, o Dia Mundial da Saúde, promovido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 1950, celebrado a dia 7 de Abril, lança o mote “Depressão: Vamos falar!”.

BÓNUS: Para mais informação sobre esta iniciativa em Português clique aqui.

A depressão é uma doença que se caracteriza por uma tristeza persistente e uma perda de interesse em atividades de que normalmente desfrutamos, acompanhada pela incapacidade de realizar atividades diárias, durante pelo menos duas semanas. Para além disso, tudo isto pode fazer-se acompanhar de sintomas como perda de energia, alterações de apetite e dos padrões de sono, ansiedade, diminuição da concentração, indecisão, inquietação, sentimentos de inutilidade, culpa, falta de esperança e pensamentos de autoflagelo ou suicídio. Pode acontecer a qualquer pessoa, de qualquer extrato social, raça ou género e não é um sinal de fraqueza. É tratável com terapias que podem ou não incluir medicação adequada.

E então, isto diz-vos alguma coisa? Segundo dados da OMS, a depressão (que conduz ao suicídio em muitos casos) é atualmente a segunda principal causa mundial de mortes entre os 15 e os 29 anos de idade. Mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de uma depressão. Todos conhecemos alguém que está a passar por uma fase em que sente alguma das coisas que acabei de descrever. Todos. Pelo menos duas das minhas melhores amigas e um familiar próximo já tiveram uma depressão; ao dia de hoje, duas outras amigas debatem-se com uma depressão. O problema é que estas são apenas as pessoas do meu círculo que foram diagnosticadas e que falam abertamente sobre a doença. Quantas mais não vivem atormentadas pela depressão ou outras doenças mentais e não procuram ajuda por medo do estigma, insegurança ou vergonha?

Não tenho conhecimentos aprofundados sobre o tema e sei que o que se passou comigo não foi sequer grave, mas não posso fingir que não aconteceu e que não mudou o meu entendimento e sensibilidade – sim, porque também eu tinha muitos preconceitos associados à doença mental que felizmente tenho vindo a conseguir desmistificar.

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