A caminho dos 30. Solteira. A viver sozinha. Com o meu gato. Sim, eu sei, sou basicamente um cliché ambulante.

Na verdade, o cenário parece-se bastante com aqueles filmes que adorava ver quando era mais nova (e ainda adoro) em que uma rapariga gira e bem resolvida vivia sozinha num apartamento pequeno e adorável para onde regressava ao final do dia, saindo do seu trabalho numa livraria. A questão é que essa rapariga do filme está sempre apaixonada, a recuperar de um desgosto amoroso, prestes a conhecer o amor da sua vida ou tudo isto ao mesmo tempo. Apaixonarmo-nos parece ser a ideia central da maior parte dos filmes; na verdade, da maior parte das nossas vidas, e isso pode ser um problema.

Sim, porque uma coisa é aos 20. Outra é aos 30, quando as pessoas à tua volta começam a casar e quando um comentário inocente sobre não sei quem que já é avó te começa a parecer uma acusação. Ou quando a tua própria mãe te aconselha a utilizar as redes sociais e parece sempre extremamente interessada na quantidade de homens solteiros presentes nos jantares onde vais. Quando isto acontece acho que é fácil sentir que todos conhecem alguém menos nós.

Porque parece fácil, não é? E a culpa é dos filmes. Quem é que conhece o amor da sua vida na fila para o café? Ou quem é que já caiu para cima de um estranho e se apaixonou à primeira vista? Depois também há aqueles amigos sortudos que namoram desde os 14 anos e que acabam de ter um bebé. Ou aquela colega do trabalho que foi de férias para a índia, conheceu um americano por quem se apaixonou perdidamente e com quem agora vive na Dinamarca.

A culpa é deles e nossa que não soubemos adaptar os nossos padrões e expectativas à velocidade a que as coisas mudam e aos tempos que vivemos. Numa altura em que, inequivocamente, não nos conhecemos nem relacionamos da mesma forma que o fazíamos talvez seja pertinente questionar os nossos modelos e abandonar alguns padrões que já não parecem fazer muito sentido.

Apaixonar-me, ver crescer uma família faz parte dos meus planos e objetivos mas, e se não fizesse? E se não acontecer? Não devemos mudar aqui qualquer coisa? A ideia de que só está sozinho quem não consegue encontrar alguém e que, por isso, é extremamente infeliz, é uma delas. Estar solteiro é uma opção tão válida como estar numa relação e o que me faz feliz a mim não é o mesmo que te faz a ti. E toda esta noção de família como a entendemos tradicionalmente, fará mesmo sentido?

Percebo que fizesse há (muitos) anos mas não deveria agora ser mais abrangente? Deixar o sangue e os contratos de matrimónio de lado e ser sobre as pessoas que gostamos mesmo de sentar à nossa mesa? Aqueles a quem ligamos quando precisamos de ajuda e que ficam tão felizes por nós como se fosse com eles? Não estou a dizer para excluirmos da foto de família aquela tia que só vemos de ano a ano mas sim para arranjarmos espaço para a nossa amiga de infância ou para aquela pessoa que conhecemos o ano passado e que já fez mais por nós que metade da família “oficial”. Para nos lembrarmos que família é uma palavra gigante e generosa onde cabe tanto mais que sangue e que há milhões de formas de sermos plenamente felizes e realizados. Umas dão para mim, outras dão para ti, nenhuma é mais certa ou correta que outra. E está tudo bem assim.

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.