Um grupo de jovens com diferentes formações e ambições a fazer voluntariado durante um fim-de-semana numa casa de saúde mental. Todos diferentes e todos com uma série de medos, interrogações e ideias pré-concebidas nas suas cabeças. Para mim a doença mental era algo que já tinha abordado em várias aulas e tinha tido algum contacto em visitas feitas no âmbito do curso, mas era um tema que ainda não tinha explorado muito. A curiosidade e o receio de falhar eram enormes, mas a vontade de contactar com estas pessoas era ainda maior!

Esquizofrenia, depressão, bipolaridade, palavras fortes que evitamos proferir, coisas que achamos que só acontecem aos outros, aos “malucos”, nós estamos noutro nível, a nós isso não nos acontece. Somos fortes, aguentamos tudo. Mentira, mentira, mentira. Todos nós nos constipamos, todos nós podemos vir a desenvolver uma doença oncológica, todos nós temos alergias, mentalizem-se de que todos nós e todos aqueles que nos rodeiam podem vir a desenvolver uma doença mental. A doença mental existe. Não são pessoas tristes, não são pessoas que não querem ultrapassar os seus problemas ou que não se esforçam para tal, elas estão doentes. Devem ser vistas como todos os doentes, pessoas que precisam de ajuda, mas que, por terem uma doença, não deixam de ser capazes de fazer o que quer que seja. Merecem trabalho, merecem o apoio da família, merecem oportunidades para fazer aquilo que gostam. Merecem, essencialmente, que olhemos para elas sem pena, sem pensar que são menos que nós. São pessoas. E quanto a isso, estamos todos no mesmo nível e devemos ter as mesmas oportunidades.

Não foi fácil, muitas das pessoas com que fui nunca tinham contactado com estas realidades e foi um grande choque. Embora não tenha expressado muito aquilo que estava a sentir, nunca é fácil ver pessoas adormecidas pela medicação, saber que estão fechadas naquele sítio há anos sem receber visitas da família ou amigos, ouvir histórias de vida que tinham tudo para  terem continuado a desenvolver-se da melhor forma, mas tal não aconteceu devido a uma doença. E doenças todos temos numa ou outra fase da vida, é esta a mensagem que quero deixar. Pessoas são pessoas. Pessoas com cancro são pessoas. Pessoas com varicela são pessoas. E eu poderia continuar esta enumeração com todas as doenças do Mundo, inclusive com a doença mental. Está provado cientificamente que ela existe e temos de nos consciencializar disso e acabar com o enorme estigma em relação a estas pessoas e à doença mental em si.

Alguns meses após esta experiência, agora no segundo semestre deste ano do meu curso, terapia ocupacional, estou a ter uma unidade curricular em que estou a lidar imenso com temáticas relacionadas com a psiquiatria e está a ser uma surpresa incrível. À partida, não era das áreas que mais me fascinava, mas estou a descobrir todo um Mundo que desconhecia. A terapia ocupacional vai permitir às pessoas com doença mental preencherem as suas vidas com aquilo que mais gostam de fazer e que, muitas vezes, a doença lhes retirou. No meio de toda a desorganização e também devido a efeitos da medicação, muitas pessoas perdem as suas rotinas e aquilo que dava sentido à sua vida e, mais uma vez, a melhor profissão do Mundo pode ajudá-las.

Gostava de terminar deixando-vos algumas interrogações. O que é afinal “ser maluco”? O que é ser “normal”? Não teremos todos nós dias em que não somos nada normais? Então, quem somos nós para descriminar e excluir alguém só por não ser “normal”? Precisamos de entender a diferença e aceitá-la como parte de todos nós, é a diferença que nos define, no dia em que aceitarmos e compreendermos isto, o Mundo vai dar um passo gigante.

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.