Domingo ao final da tarde. Lá fora chove, está frio e eu acabei de tomar um banho quente e de vestir o pijama. Há velas acesas, música a tocar baixinho e estou a fazer um bolo de chocolate. É um daqueles momentos perfeitos para os quais sempre me faltou a palavra ideal. Até descobrir o hygge.

O hygge, por mais difícil que seja de pronunciar (diz-se HOO-ga) tem andado nas bocas do mundo e promete ajudar-nos a ser mais felizes ou não viesse da Dinamarca, o país mais feliz do mundo, segundo o Relatório sobre a Felicidade das Nações Unidas. A culpa é de Meik Wiking, presidente do Hapiness Research Institute (quem não quereria trabalhar aqui??) e do seu “O livro do Hygge” que se tornou rapidamente um fenómeno mundial. O meu foi-me oferecido por uma amiga e deixou-me a pensar como é bom ter pessoas na nossa vida que nos conhecem tão bem.

Então, o que é o hygge? Algumas das muitas traduções possíveis são “conforto”, “a arte de criar intimidade” ou “ter prazer com coisas simples” mas deixam muito por explicar, talvez porque o hygge fala, essencialmente, de uma certa atmosfera ou sensação que temos em determinados momentos, contextos e experiências. Beber chocolate quente embrulhado numa manta é hygge. O Natal é hygge. Um café pequeno e quente, com luzes baixas e uma atmosfera acolhedora é hygge. Preparar um jantar com amigos é hygge. Meias de lã são hygge. Um churrasco ao entardecer é hygge. Conversas à lareira são hygge. No fundo, hygge é tudo o que é bom, simples, despretensioso, confortável e seguro. É aquilo que sentimos em casa, mesmo que estejamos lá fora e baseia-se em dez conceitos essenciais: Ambiente, Presença, Prazer, Igualdade, Gratidão, Harmonia, Conforto, Tréguas, Convívio e Refúgio.

Nas palavras de Meik Wiking, “O hygge é humilde e compassado. É escolher o rústico em vez do novo, o simples em vez do requintado, o ambiente em vez da excitação. Em muitos aspectos, o hygge pode ser o primo dinamarquês da vida simples e lenta. É ver a trilogia de «O senhor dos Anéis» de pijama um dia antes do Natal, é sentar-se à janela a bebericar o chá predilecto, é contemplar a fogueira no solstício de verão, rodeado de amigos e família enquanto o pão torcido vai assando.”

Tendo em conta o clima da Dinamarca não é difícil perceber porque é que a casa é o eixo central do hygge. Apesar de poder ser praticado em qualquer lado é em casa que sentimos mais hygge e embora não haja exactamente uma receita para criar um ambiente, um momento ou uma vida hygge há alguns elementos base que estão quase sempre presentes e que podem ajudar como mantas e almofadas, objectos bonitos e com texturas confortáveis (nada de inox!), comida apetitosa, livros, lareiras, velas e elementos da natureza. E aqueles que amamos. Claro que estar sozinho também pode ser muito hygge. Passar um domingo de chuva no sofá a ver o nosso filme preferido é perfeito mas para a grande maioria das pessoas os momentos mais hygge são passados na companhia dos outros.

Em suma, hygge é sobre saborear a vida. Sobre celebrar as coisas pequeninas que nos aquecem por dentro (e por fora, caso estejamos em frente à lareira!) e viver o momento, o aqui e o agora. Sobre praticar uma vida feliz e com significado em que o que verdadeiramente importa é valorizado e o resto não é levado demasiado a sério. É sobre ser simples, grato e desempoeirado. Hygge é sobre chegar a casa depois de uma caminhada de inverno e calçar umas meias de lã e, quanto a mim, pode bem ser o segredo da felicidade.

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.