É Primavera, a altura perfeita para nos apaixonarmos. E não, não tem nada a ver com as árvores cheias de flores, os passarinhos sempre a cantar ou com o tempo, perfeito para passeios românticos e para caminhar de mão dada. Na verdade a culpa é da dopamina.

Simplificando (muito), este neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa faz-nos querer coisas. Coisas boas, já que as experiências agradáveis estimulam a sua produção. Se houver suficiente dopamina no nosso organismo é bastante provável que nos apaixonemos e até que isso evolua para uma relação séria, já que também é responsável pelo sentimento de apego.  Claro que isto pode acontecer a qualquer altura e em qualquer estação mas parece ser mais frequente nesta altura do ano. Porquê? Porque a produção de dopamina é desencadeada pela novidade, por novas experiências e a Primavera está cheia delas. De repente há cores e cheiros novos em toda a parte. Saímos mais, vamos a sítios que não conhecíamos ou onde não íamos há bastante tempo. Arrumamos a roupa de inverno e há muito mais pele à vista. Tudo isto nos deixa cheios de dopamina e cheios de vontade de encontrar o amor. A todos menos a mim, ao que parece.

Há uns tempos disseram-me que não me imaginavam muito preocupada com estas questões, “preocupada com o amor”. Isto fez-me pensar. Primeiro porque apaixonar-me e estar numa relação forte, estável, feliz e saudável é algo que quero mesmo muito mas aparentemente não é isso que deixo transparecer. E segundo porque o comentário foi feito como quem me elogia e eu sei porquê. É que até podemos andar todos a pensar nisto, a invejar casais felizes na rua, a suspirar com comédias românticas, a contar o tempo que já passou e que ainda nos resta segundo os prazos idiotas que estabelecemos aos 20 anos, mas Deus nos livre de o dizer! Não sei se é igual para homens e mulheres, mas de uma perspectiva feminina, algures pelo caminho tornou-se quase proibido dizer que sim, gostava de me apaixonar em breve como se isso colocasse em causa a imagem emancipada, capaz e independente que tanto lutámos e lutamos para que nos seja justamente reconhecida. Tornamo-nos imediatamente umas tontas que não vivem sem um homem, demasiado needy e que só pensam em casar e ter bebés, quando a questão não é ser ou não capaz de viver sem um homem ou mulher, é claro que somos. A questão é querer partilhar a vida com alguém.

Tudo bem, quero partilhar a minha vida com alguém mas com quem? É verdade que pode ser bastante difícil conhecer alguém hoje em dia e aí nem a dopamina nos pode ajudar. As razões são muitas e fáceis de decifrar. A partir de uma certa altura a vida estabiliza, conhecemos poucas pessoas novas, frequentamos quase sempre os mesmos ambientes, os amigos começam a casar ou a viver junto e há cada vez menos gente “disponível” à nossa volta. Mas será só isto? Eu acho que não.

Falemos de propagação da espécie, alianças políticas ou familiares, de conveniência, convenções ou de amor romântico, as pessoas sempre se casaram, se juntaram, não há aqui nada de novo. A novidade é a alternativa. Quando não havia outra forma, quando crescíamos e casávamos porque era isso que se fazia, aí não tínhamos que o querer. Agora temos e ainda bem mas dizê-lo e assumi-lo implica alguma vulnerabilidade e eu penso que é aqui que está a nossa maior dificuldade.

Evoluímos tanto no que toca ao direito de escolher outras formas de vida além das que eram convencionais mas isso não significa que haja algo de errado em querer o mesmo que as nossas avós. Se há lição a retirar dos tempos simultaneamente maravilhosos e assustadores que vivemos é que somos mesmo todos iguais e somos mesmo todos diferentes. Queremos todos ser felizes mas a felicidade não é universal, não significa o mesmo para todos. Para mim significa umas coisas, para outros significará outras. Algumas com que me consigo relacionar, outras que não fazem qualquer sentido para mim mas nenhuma é criticável, nenhuma é crime. Crime é não ir atrás, não viver de acordo e não nos deixarmos invadir pela dopamina, se for caso disso.

 

Este texto foi traduzido para inglês. Clique aqui para ler a versão inglesa.