Guiné Bissau

Uma terra que parece perdida no tempo, ainda. Uma terra de contrastes. De gargalhadas e choros. De danças e gritos. De sorrisos sinceros e olhares afligidos. Um paraíso na Terra, um poço de aflição!

Um calor ofegante a cada dia do ano, onde o único momento em que o corpo sente um alívio de temperatura é ao fim do dia, no lusco-fusco. Mas aí são os mosquitos que atacam. O repelente parece não ser suficiente e à medida que o tempo passa, nós habituamo-nos a eles e eles a nós – aos mosquitos!  O calor, é uma grande característica da Guiné-Bissau. São precisos 3 dias de habituação corporal, onde o tempo passa e nós não nos mexemos, não temos força. Nem física nem psicológica.  Precisamos de uma aguardente de cana para “apagar o fogo” – expressão guineense que se utiliza para aguentarmos aquilo que precisamos de enfrentar.

Aquilo que vemos, mata-nos por dentro.  Mas é aqui que a nossa vida começa a ter um sentido! É neste momento, quando a mutualidade de sentimentos é estabelecida, entre nós e eles, que a minha vida começa a ter um sentido! Perceber que se cada um, com um mínimo gesto, consegue ajudar um outro, tudo seria mais simples e, no final, todos seriam mais felizes – que na realidade é esse o objetivo em comum, de todos!

É a reciprocidade, daquilo que está ao alcance de cada um, que traria harmonia no mundo! Nós vamos lá e levamos/damos aquilo que está ao nosso alcance para ajudar Vidas que só precisão de uma oportunidade. Eles recebem-nos, com tudo o que têm, para nos sentirmos bem. Aqui trocam-se ideias, visões, conhecimentos. Eles ensinam-nos a precisar de pouco. Nós ensinamos a valorizar o pouco que têm.

Aqui, na Guiné, as ruas são áridas, o verde é escasso, o lixo é característica integrante da paisagem, os cheiros são intensos, a água não é um bem adquirido… mas os sorrisos são tão alegres, as cores fortes dos tecidos que vestem as mulheres, a energia da musica que está dentro de cada gene, as mangas apanhadas da árvore e os cajus em fruto para saciar a fome e a sede… com tudo isto tenho um misto de sensações dentro de mim! É lindo, mas é tão triste. A pobreza é triste quando comparada à riqueza desnecessária em um outro lado do mundo. O desequilíbrio que existe, isso sim, é triste.

Em prol desse desequilíbrio, surgiu a Única, com a intenção de equilibrar a harmonia!

Há 3 anos que existe a “ÚNICA Mixing Cultures – ONGD. Sediada em Sintra e em Bissau dedica-se ao diálogo entre diferentes culturas com o objetivo de contribuir para o Desenvolvimento através de ações ligadas à Música, Educação, Formação e promoção da harmonia e igualdade. Tem como principal objetivo promover o diálogo de culturas entre países modernos e países em vias de desenvolvimento. Uma troca bilateral estimuladora de pontes e relações entre pessoas ou instituições de ambos os lados, permitindo um enriquecimento cultural e sensibilidade comunitária do lado dos países desenvolvidos e, simultaneamente, canalizando recursos e conhecimento para o lado dos países em vias de desenvolvimento. Na base da ÚNICA está a relação entre Portugal e Guiné-Bissau que usamos como exemplo para outros projetos entre outros países, como é já o caso do voluntariado no Peru”.

“NO NA VIVI é um projeto que começou em 2014 com a implementação de um serviço de emergência que faculta gratuitamente paracetamol em situações de emergência de febres altas em crianças com menos de 5 anos de idade. Apesar de raro, o paludismo pode ser fatal em crianças desta faixa etária. Este serviço mantém-se em funcionamento e os pais de crianças que estejam inscritas num dos 10 Jardins de infância podem contactar a ÚNICA para beneficiarem do serviço. Entre Dezembro de 2015 e Janeiro de 2016 a ÚNICA entregou caixas de primeiros socorros a estes Jardins de Infância e reuniu-se com os seus diretores para identificar potenciais linhas de cação para o desenvolvimento das suas instituições.

Os materiais que a ÚNICA entrega nestes jardins de infância foram angariados em Portugal numa parceria com a ÉTER – Produção Cultural, promovendo uma campanha de angariação para escolas do ensino secundário, outras instituições e público em geral”

Em 2016 surgiu também a Madrinha Única que visa garantir o aproveitamento escolar de crianças que não têm essa possibilidade. Já 77 crianças têm a anuidade escolar garantida com as doações de voluntários. A Única compromete-se a retribuir com notícias sobre essas crianças, o seu percurso e aproveitamento nos jardins de infância.

A Única promove cursos e workshops, aos educadores de infância, de Expressão Dramática, Jogos Teatrais, Meditação, noções básicas de Primeiros Socorros, técnicos de Som e Luz, implementa atividades como o Cantinho da Brincadeira, o Cantinho da Leitura e o Cantinho da Meditação nos jardins de infância, contribuindo para a aprendizagem e desenvolvimento global das crianças e para o importante trabalho de todos os educadores.

Em prol da ONGD surge o projeto musical UNO – United Music for a United World, é esta a mensagem que promove a partir de uma mistura de géneros musicais. Voz e ritmos africanos unidos com sons eletrónicos europeus. Um encontro afro-electrónico clamando por união no mundo. Um dos temas, ONE, canta a mensagem “somos um” em onze línguas diferentes.

Existe também a Única – Mixing Colors, uma marca de roupas e produtos que surgem da mistura de materiais Guineenses e ideias Portuguesas, promovendo a união entre os dois países. Na aquisição dos produtos, uma percentagem reverte a favor da ONGD, promovendo assim o aumento de sorrisos na Guiné-Bissau.

A Única – Mixing Cultures participa na Transformação do Mundo.

A ONU propõe 17 objetivos de desenvolvimento sustentável ate 2030, entre os quais, erradicar a pobreza, erradicar a fome, saúde de qualidade, igualdade de géneros, energias renováveis e acessíveis, entre outros… a Única participa diretamente no 4º objetivo: Educação de Qualidade!

Não, não é de um dia para o outro que se melhora ou se resolve o que está mal mas é sim com gestos e atitudes diárias, com mensagens que podemos passar e educação consciente. Talvez já não estejamos aqui para ver essas melhorias pelas quais lutamos, mas estão os outros, que não deixam de ser uma parte de nós. À primeira vista, a Guiné-Bissau, parece não ter esperança alguma, mas é no olhar de cada criança que ao receber um livro e ao transportar a sua cadeira de plástico diariamente para a escola, que, afinal, a esperança não morreu. O futuro está ali, na vontade admirável de cada educador e de cada criança em ensinar e aprender.

É aqui, quando as vontades ultrapassam os ditos obstáculos, que a nossa vida começa a fazer sentido. Está nas mãos de cada um, o potencial de um maior equilíbrio no mundo!

Nota: No na vivi é uma expressão de celebração e esperança em crioulo guineense.

 

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