21 de novembro de 2011, estava eu sentada na segunda fila do Grande Auditório da Gulbenkian a ver um dos mais marcantes concertos da minha vida. Do lado esquerdo do palco, ao piano, Ryuichi Sakamoto soltava pausadamente e com uma notável delicadeza notas de temas como Energy Flow, Solitude, Rain, Bibo no aozora que ecoavam por entre os seus ouvintes.

Há concertos e concertos. E depois há aqueles em que temos de respirar fundo, esquecer o que nos rodeia, tornando-nos vulneráveis e deixar que a música faça o seu papel – o de percorrer a nossa alma e de nos transportar para outros mundos.

Sakamoto foi isto e muito mais.

Conheci Sakamoto, quando o meu pai me ofereceu um cd dele intitulado “Ryuichi Sakamoto| Playing the Orchestra”. Do albúm faziam parte vários temas, entre os quais as músicas dos filmes Merry Christmas Mr. Lawrence (Nagisa Ôshima, 1983) – filme onde Sakamoto participa e contracena com David Bowie e The Last Emperor (Bernardo Bertolucci, 1987). Mas, foi Merry Christmas Mr. Lawrence que, instantaneamente, me tirou os pés do chão.

Compositor, produtor e actor, Sakamoto estudou na Universidade Nacional de Tóquio de Belas Artes e Música e formou-se em composição, sendo considerado um dos mais aclamados músicos japoneses.

Gravou o seu primeiro álbum em 1978, que inclui músicas como “Thousand Knives” e “The End of Asia”. Paralelamente, torna-se membro do grupo electrónico “Yellow Magic Orchestra”. Nomes como David Sylvian, Alva Noto, Caetano Veloso e Rodrigo Leão são alguns dos artistas com quem Sakamoto colaborou.

O tema Merry Christmas Mr. Lawrence tem uma versão cantada na voz de David Sylvian que é puramente maravilhosa. Forbidden Colours, titulo retirado de um livro do escritor japonês Yukio Mishima, fala sobre a homossexualidade.  A música é, talvez, uma das suas composições de maior renome.

Até aos dias de hoje, Sakamoto não cessa de explorar diferentes estilos musicais. Desde música clássica a um género electrónico, ambiental e experimental, como é o caso da colaboração com Alva Noto em álbuns como Vrioon e Insen a uma sonoridade mais folk, muito presente em Beauty, por exemplo. Um álbum que se caracteriza por uma espécie de colagem de géneros musicais que vão desde rock, techno, clássica, flamenco e ritmos africanos e japoneses.

Ao reflectir sobre o que é a música, uma narrativa ou um media ilustrativo ou abstracto, Sakamoto disse: “I have visions sometimes when I’m writing contemporary music, even when it’s very logical. For example, for one of my songs on the album Beauty, I was always having visions of Amazonian rainforests, a little plane flying very low over the trees. Trees, trees, trees, and some birds. But the title of the song is ‘Calling from Tokyo‘”.

Recentemente, depois de 5 anos afastado devido a razões de saúde, Sakamoto regressou na companhia de Alva Noto na banda sonora de The Revenant e lançou em abril o seu vigésimo albúm. async é um registo humilde de como apreciar as pequenas coisas da vida e absorver a plenitude do som, mesmo no seu estado mais delicado.

 

Sakamoto é isto e muito mais.

 

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