Lembro-me, há uns anos atrás, de almoçar com um colega de trabalho do meu marido, o qual esporadicamente se desloca a África para caçar leões. Face à minha expressão de desagravo, explicou-me, baseando-se em artigos científicos que consultara, quais as razões porque o faz: 1) o impacto económico nas comunidades africanas que os recebem e que, dedicando-se à promoção deste tipo de turismo, garantem assim o seu sustento, afastando-se simultaneamente de outras atividades que considera mais prejudiciais; 2) os benefícios ambientais de caçar um leão já velho, dando assim um impulso à sucessão de outro macho mais novo e dominante, assim como as hienas ajudaram o Scar a ver-se livre do Mufasa.

Não vejo grande interesse em apontar o dedo à falta de evolução de quem partilha uma refeição comigo, aliás parece-me ainda pior que nos dias de hoje tenhamos perdido a capacidade de dialogar com quem não concorda connosco. E com isto não quero dizer que aprove, apenas que, não sendo eu perfeita, não me sinto capaz de julgar ninguém (exceto, logicamente, quem usa sandálias com meias brancas – essa gente merece o inferno). Prefiro deixar a hipótese da falta de evolução em aberto, discutir a visão colonialista de quem ainda acredita que os seus “desportos de elite” podem salvar comunidades africanas e questionar até que ponto um turista faz parte do ecossistema selvagem.

Na busca por uma postura ética honesta, voltei o diálogo que tivemos para o interior: caçar ou comer animais, qual a diferença? Há três anos atrás deixei de comer carne: mantive esporadicamente peixe (que, tecnicamente, também é carne), queijo, ovos, marisco e caracóis no verão. Fi-lo por razões éticas e mantive a decisão reduzindo ao máximo os produtos de origem animal por uma questão simples: sinto-me melhor, corpo e mente. Mas poderemos mesmo equiparar a caça de um leão ao meu almoço de robalo grelhado?

Em 2004 David Foster Wallace dedicou o seu artigo “Consider the lobster” a discutir as implicações de comer lagosta, dissecando e descrevendo ao pormenor todo o processo de captura e preparação das mesmas. Ao contrário da maioria da comida que preparamos, que já nos chega às mãos apta a ser cozinhada – aka, morta – as lagostas são cozinhadas vivas, e mesmo os supostos 45 segundos que demoram a morrer, são capazes de causar agonia tanto nos animais como nos cozinheiros.

Michael Pollan coloca a questão noutros termos: o salto evolutivo na espécie humana foi impulsionado com o início da confecção dos alimentos. Ficámos com mais espaço no crânio e assim libertos da função de mastigar raízes durante horas para lhes retirar os nutrientes. A capacidade encefálica melhorou e ganhámos tempo e energia para explorar outras actividades. O fogo permitiu-nos isso, sendo na opinião do autor importante que os humanos façam as pazes com a ideia de que o que comem é fruto da acção de matar. A gastronomia diferenciou-nos dos restantes animais e trouxe com ela o dever de respeito por aqueles que sacrificamos para comer. E acrescentou: “Eat food. Not too much. Mostly plants.”

Secundado por outros autores, como Mark Bittman que encontrou na fórmula Vegan Before Six a resposta para o problema do excesso de consumo de proteína animal, Pollan posiciona-se contra a indústria alimentar moderna. Numa carta aberta para o na altura Presidente americano eleito, Barack Obama, argumenta que esta indústria prejudica a saúde das populações, destrói o ambiente e submete a economia ao jugo dos combustíveis fósseis. Estas exortações, como outras, levaram ao compromisso dos antigos Presidente e Primeira Dama americanos com uma alimentação saudável, algo que nos dias de hoje seria difícil de acontecer visto que o atual Presidente parece debater-se com problemas de literacia e dificilmente chegaria ao fim desta carta aberta. Provavelmente aborrecer-se-ia e acabaria a espairecer em África com o meu amigo. E quase que aposto que usa meias brancas.

Então qual a solução? Mais niilismo? Nada a fazer se não podemos mudar o mundo até ao próximo fim-de-semana? Não, pequenas mudanças e capacidade de dialogar. Eu fiz as minhas e continuo a fazer outras mais. E se posso ajudar alguém a parar e pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão acerca da sua próxima refeição, vou fazê-lo com sabor e uma boa dose de informação.

(Uma espécie de) Carbonara Vegan

Ingredientes:

  • Bacon de tempeh
  • 1 embalagem de 170g de tempeh fumado
  • 1 colher de chá de açúcar de côco
  • 1/4 de cup de molho de soja
  • 2 colheres de sopa de paprika fumada
  • 2 colheres de sopa de água

Numa taça misturar os temperos. Cortar o tempeh em fatias finas, envolver nesse preparado e deixar a marinar. Num grelhador com azeite colocar as fatias de tempeh, virando para que fritem dos dois lados.

Nota: receita adaptada de Os Básicos da Cozinha Vegana de Maria de Oliveira Dias, p. 80.

Molho carbonara

Ingredientes:

  • esparguete integral
  • 1 colher de sopa de azeite
  • 2 dentes de alho, picados
  • 4 colheres de sopa de farinha maizena
  • 2 copos leite de amêndoa + 2 copos leite de amêndoa
  • sal
  • pimenta preta
  • 4 cs nutritional yeast
  • 1/2 cc de alho em pó
  • 1/4 de cup de parmesão vegan + qb para polvilhar
  • óregãos

Nota: receita adaptada do blogue Minimalist Baker.

Preparação

Cozer o esparguete com uma pitada de sal. Escorrer e reservar.

Noutra panela refogar os dentes de alho em azeite, adicionar a maizena, envolver e adicionar 2 copos de leite de amêndoa aos poucos. Cozinhar durante 5 minutos e desligar o lume. Colocar num processador este molho com os temperos e liquidificar. Levar novamente a lume baixo adicionando o restante leite até que engrosse.

Envolver o esparguete na carbonara, adicionar o bacon, polvilhar com um pouco de parmesão vegan e orégãos secos.

 

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