“Ver um filme de Ozu constitui uma experiência tão cruel e intensa que cada segundo é vivido como um presente infinito”.

Shigehiko Hazumi

Considerado um dos grandes nomes do cinema japonês, Yasujiro Ozu nasceu no Japão em 1903. Filho de comerciantes, apaixona-se pelo cinema quando aos seus dez anos vê o filme Civilisation de Thomas Ince (pai do western americano). Desde cedo coleciona programas, escreve para os comentadores dos filmes mudos e viaja para Nagoya em busca de filmes importados da Europa e dos Estados Unidos. Encanta-se pela obra de Griffith, Chaplin, Lloyd, Murnau e será fortemente influenciado por Lubitsch. Em 1923, contra a vontade dos pais ingressa na Shochiku – um dos maiores estúdios de cinema japonês.

Ozu alcança a sua apoteose em 1953, com Viagem a Tóquio. O filme conta a história da visita a Tóquio do casal Hirayama que, viaja até à capital para ir ao encontro dos seus filhos. O encontro que se dá pretende demonstrar o colapso dos valores familiares da sociedade japonesa do pós-guerra. Em 1953, o Japão encontrava-se em plena recuperação socioeconómica. A ocidentalização havia trazido novos costumes caracterizados por fortes ideais democráticos. Sob um olhar perspicazmente japonês, Ozu retrata a realidade do Japão na década de 50 de uma forma magistral e sem recorrer a quaisquer artifícios ou dramatizações. Numa busca pela verdade, Ozu convida-nos a um jogo de mútua descoberta, entre os personagens e nós próprios.

Quase mudo, tudo é sugerido ao mais ínfimo pormenor. O filme, em si, metaforiza uma certa abstração que vai para além do tempo, do espaço, como um poema efémero (mono no aware) em que as imagens, os planos e as sequências tomam parte de um todo. Esta estética budista requer uma minuciosa técnica cinematográfica da qual Ozu põe em evidência nos seus vários filmes – câmara fixa, sinónimo de deliberação; tempo meditativo; a posição baixa da câmara; os planos frontais. Tudo isto pretende incentivar o espectador a prestar atenção à forma como a narrativa se constrói ao longo do filme e estabelecer contacto com uma cultura em declínio e a passagem de uma era.

Em toda a sua obra, Ozu revela um profundo japonesismo, justamente pela sua visão verdadeiramente humanista e justa da sociedade japonesa. Falando de arte japonesa, poderíamos afirmar que um dos seus princípios prende-se à questão de não arte, isto é, uma arte conduzida por uma certa ingenuidade e simplicidade.

Ozu é mestre dessa simplicidade. Não há qualquer pretensiosismo na sua arte. Não. Ozu procura a beleza que é possível encontrar no nada, no vazio. Beleza que está presente numa simples flor, numa nuvem solitária ou num curto poema. E é este aqui e agora, esta presença efémera que Ozu pretende captar nas suas imagens, oferecendo ao espectador a iniciativa do seu olhar, da sua interpretação e da sua reação perante cada plano.

Numa história universal e verdadeira, Ozu oferece-nos a imagem de uma família de classe média japonesa, mostrando a forma como os seus membros se interrelacionam e são afetados pelos acontecimentos do quotidiano. A próposito desta ideia, no documentário Tokyo-Ga, Wim Wenders sublinha que: “Os filmes de Ozu lidam com a lenta deterioração da família Japonesa e, por sua vez, da deterioração da identidade nacional. Mas não o faz com a consternação do que é novo, ocidental ou americano, mas com o pesar associado a uma certa nostalgia e perda”.

Num retrato simples, Viagem a Tóquio é muito mais do que deixa transparecer.

 

Para ler este texto em inglês clique aqui.

Click here to read this post in English.