“O homem é um génio quando sonha.”

Akira Kurosawa

Durante o século XIX, filósofos, poetas e artistas românticos que se opunham ao pensamento das luzes e da razão, tinham em mente a apreensão do saber por meio dos sonhos. Estes autores e teóricos reivindicavam que a componente onírica era portadora de um significado relativo à irracionalidade.

Na viragem do século, nascia uma nova corrente científica – a psicanálise. Esta ciência terá influenciado os artistas da época que viram nesta ciência uma resposta às suas criações visuais. As teorias de Freud propagavam-se e o sonho adquiria um papel central nas artes visuais do século XX. Com o passar dos tempos, os artistas viram-se preocupados na representação dos sonhos em diversas expressões artísticas: no cinema, na pintura, na fotografia, na escultura, etc. Logo, se manifestava a ideia de que o dreamwork – o processo no qual o inconsciente produz o sonho seria semelhante ao processo pelo qual o artista criava metáforas e formas simbólicas.

Houve quem chegasse a afirmar que o cinema seria a melhor forma de representação dos sonhos. Salvador Dali e Luis Buñuel partilhavam a ideia de que, “no filme a estética surrealista reúne-se às descobertas freudianas (…) o filme seria realizado a partir de um sentimento inconsciente do Homem”. De tal forma, que seriam produzidas no filme uma série de imagens desconectas, sugerindo uma transformação pela condensação semelhante à componente onírica.

O filme tornava-se num espaço capaz de experenciar as teorias freudianas, transformando-se numa sinfonia onírica visual. Assente neste conceito, a estrutura do filme obedecia aos mecanismos regedores do nosso inconsciente. O dispositivo cinematográfico seria então visto, como uma prótese técnica capaz de prolongar o nosso aparelho psíquico, permitindo a elaboração de uma cultura visual dominada pelo fantasma do sonho.

É, contudo, importante referir que o cinema não é o equivalente do sonho. O sonho nasce de uma ausência de percepção, pelo que no cinema as imagens são formadas com uma realidade, a partir dessa percepção. Assim, o cinema apenas reproduz a impressão de uma realidade, impressão esta que se assemelha à que se desenvolve no sonho.

No seu artigo, En sortant du cinéma, Roland Barthes fala-nos da experiência do espectador na sala de cinema, fazendo um paralelo com o sujeito que dorme e sonha. O autor aponta para a predisposição do espectador no cinema que antes de chegar à sala mostra ter as condições reunidas para ser hipnotizado. A imobilidade do sujeito na cadeira do cinema, a inércia e a própria escuridão da sala consolidam esta metáfora entre a postura do espectador na sala de cinema e o sujeito que dorme e que parece mergulhar num estado de confusão entre o sonho e a realidade.

A cortina cai, a sala volta a iluminar-se. É tempo de abandonar a sala de cinema e como Barthes diz:

“(…) ele gosta de sair do cinema (…) dirigir-se a um café, caminhar silenciosamente (sem falar do filme que acabou de ver (…) o seu corpo está agora relaxado, delicado, calmo: macio como um gato sonolento (…)”.

BÓNUS: Se estás interessado(a) nesta temática, há uma série de filmes que se propõem falar
sobre os sonhos. Aqui estão algumas sugestões: Le Rêve d'un Maître de Ballet; Spelbound;
; Eraserhead; Stalker; Santa Sangre; Dreams; Waking Life; La Science des Rêves e
Inception.

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