Enquanto consumidores não temos por hábito perguntar-nos como é que as coisas chegaram até nós. Coisas que têm um peso tão grande nas nossas vidas. Normalmente só nos interessa que sejam nossas, não nos interessa como foram feitas.

Não estamos formatados para nos questionarmos sobre isso. Estamos formatados para trabalhar, para podermos comprar coisas que achamos giras e uteis.

São assim os tempos em que vivemos. Felizmente neste nosso tempo, a falta de informação é facilmente contornável, desde que façamos as perguntas e a pesquisa certas.

Ao fazermos as perguntas certas aumentamos o nosso apreço pelos objectos, porque de repente percebemos que existe todo um processo complexo para que as coisas cheguem até nos, uma história. Acima de tudo, faz-nos perceber o tipo de consumidor que queremos ser, que marcas querermos apoiar, e como é que os recursos do nosso planeta estão a ser utilizados.

As perguntas são simples, e podem claro, acrescentar as vossas.

Vamos imaginar que compraram uma t-shirt:

  1. De que forma é que o algodão foi produzido? É orgânico? Em que parte do mundo? Que recursos foram usados e em que quantidades? (como o solo, e a água)
  2. Depois de produzido, como é que o algodão chegou à fábrica? Quem o transportou?
  3. Na fábrica, quem trabalhou o tecido? Quem coseu a t-shirt? Em que condições trabalha? Quantas t-shirts fez num dia? Em que parte do mundo?
  4. Quem embalou, etiquetou a t-shirt e colocou na zona de transporte?
  5. Quem transportou a t-shirt até à loja ou armazém mais próximo?
  6. Viajou de avião? De camião? De bicicleta?
  7. Na loja, quem arrumou no armazém? Retirou da proteção de plástico, e colocou num cabide para exposição?
  8. Quem comprou a t-shirt? Qual foi a motivação para a compra? Quantas t-shirts tem, para além da que comprou hoje?
  9. Para onde vai a t-shirt quando já não a quiser usar mais?

Agora vamos imaginar que estão no supermercado a comprar framboesas:

  1. De onde vieram estas framboesas?
  2. De que forma foram produzidas? Que recursos foram retirados ao planeta? Será que usaram pesticidas? E quais as condições do solo?
  3. Quem apanhou as framboesas, e colocou numa caixa de plástico?
  4. Que recursos foram usados para fazer a caixa de plástico?
  5. Será o preço destas framboesas justo?
  6. Como é que chegaram até mim? De avião, de carro? Há quanto tempo estão aqui na prateleira?
  7. O que vou fazer à embalagem de plástico depois de comer as framboesas? Será que posso reciclar? Ou vai para a lixeira municipal? Quanto tempo irá demorar a decompor-se?

Estas são perguntas básicas. Não precisamos ser técnicos, nem precisamos de saber como se produzem framboesas ou algodão para fazer estas perguntas.

Precisamos sim de nos colocar no lugar de quem contribuiu para que a t-shirt e as framboesas chegassem até nós. Saber de que forma é que aquela marca produz o seu produto, e se tem em conta, aspectos básicos como um salário justo para os seus trabalhadores, condições de segurança, carga horária, materiais e infraestruturas, incentivos, etc.

Precisamos de saber se essa é uma das marcas que não devemos apoiar. Será que explora os seus trabalhadores, e lhes dá condições precárias? Só para que possamos ter t-shirts a preços baixos, e em muitas quantidades?

Marcas que privilegiam quantidade e preços baixos e que não respeitam a qualidade, sustentabilidade, condições justas e dignas para os seus trabalhadores, deviam ser banidas do nosso leque de opções. Porque afinal uma t-shirt nova não vai mudar a nossa vida, mas mostrar às marcas que sabemos o que estamos a comprar, vai mudar a vida dos seus trabalhadores, e vai quebrar com este ciclo vicioso.

Está na altura de sermos todos mais adultos, de deixar de achar que não existem mais opções, e de pôr a preguiça de lado. Fazer perguntas dá trabalho, mudar hábitos dá mais trabalho ainda, mas ficar quieto só faz com que sejamos hipócritas, egoístas e limitados.

Vamos a isso?

 

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