Há um excerto do Daily Show que há anos não me sai da cabeça. Em 2010 Jon Stewart iniciou a sua entrevista a Barbara Ehrenreich, com um animado “What’s up, grumpy?”. Ehrenreich, autora de diversos best-sellers focados nos paradoxos da sociedade americana contemporânea, na altura encontrava-se a promover o seu novo livro Bright-sided: how the relentless promotion of positive thinking has undermined America (2010), onde disseca as bases do pensamento positivo e as suas implicações económicas.

A motivação para investigar este tema surgiu-lhe após lhe ter sido diagnosticado um cancro da mama. Nessa altura a autora procurou apoio e empatia entre quem padecia da mesma doença, tendo sido confrontada com uma comunidade de profissionais de saúde e de pacientes que a motivavam a ser mais positiva. O cancro era-lhe apresentado como uma oportunidade de crescimento, de valorização pessoal, como um obstáculo que a tornaria mais forte quando ultrapassado. Se face a uma doença grave uma pessoa é continuamente aconselhada a recitar afirmações positivas que supostamente irão reforçar o seu sistema imunitário e a trabalhar a sua atitude, como é que os medos e os obstáculos reais são validados nesta sociedade?, perguntou-se a jornalista enquanto constatava que nada disso a ajudava a lidar com o seu problema.

Eu entendo este ponto, na realidade até bastante bem. Quando tinha 7 anos voei de um carrossel na Feira Popular, tendo tido como resultado uma fratura exposta. 13 anos depois o carro onde seguia capotou e novamente a minha mão direita sofreu as consequências. 4 cirurgias reconstrutivas depois e ainda hoje me dizem que tive “imensa sorte”. A verdade é que não só todas as cicatrizes são visíveis na pele, como sorte teria sido se não tivesse passado por nenhuma dessas experiências. Não me fizeram uma pessoa melhor, não me ensinaram a ultrapassar obstáculos, não foram oportunidades de crescimento. Apenas me magoaram de maneiras que as palavras não chegam para descrever. E falarem-me da sorte que tive é roubarem à dor o seu significado e obrigarem-me a encaixá-la numa conformidade que a bloqueia. Mas porque é que não me sentindo otimista em relação ao meu sofrimento senti sempre que de alguma maneira estava a falhar?

Voltando ao bem-estar.

Ehrenreich notou que a tónica colocada no otimismo e na responsabilidade individual, a par de uma disciplina férrea, anulava as desculpas para o fracasso. O que verificou na sua experiência transpôs para a análise do mercado. A jornalista verificou que a destruição da classe média como a conhecemos alimenta uma indústria de life coaches e de gurus, de DVDs e de livros de autoajuda, os quais visam estimular o pensamento positivo, em resposta à perda da capacidade de lidar com obstáculos reais e resultados negativos. E, claro, também aumenta uma indústria florescente de antidepressivos. Se “todas as coisas são possíveis através de um esforço mental” (Enrenreich, 2010:33), qual a desculpa para o fracasso, para a doença, para o desemprego e para a crise? Não basta desejar a felicidade e achar que está ao alcance de todos. É preciso prepararmo-nos para os obstáculos e não recear as nossas emoções, afirma Ehrenreich.

Culpabilizar aqueles que não se sentem felizes obriga a um exercício de tábua rasa das condições que conduziram aos problemas e transforma-nos em narcisistas, expõe-nos à hiper-individualidade e alimenta uma indústria de felicidade que não joga a nosso favor. Pelo contrário: estimula o controlo social, movimenta um negócio extremamente lucrativo e responsabiliza-nos pelas injustiças que instituições e mercados criam. Pior: reduz as nossas emoções a uma norma, a felicidade a uma responsabilidade, a tristeza a um fardo e a empatia pelos problemas dos outros (já que cada um deve cuidar de si primeiro) a uma utopia. Não precisamos de cheerleaders, mas sim de realismo.

Mas podemos ir mais longe. A nova tendência do selfcare (desculpem, #selfcare), associada a uma resiliência e a uma comunidade de gente que anda a aprender a “gostar de si” desdobra-se em produtos e serviços devidamente enquadrados no marketing global e nas redes sociais. Mas existe uma história por detrás deste recém descoberto romance que acompanha a necessidade de não só gostarmos de nós próprios, como de mostrarmos aos outros que o fazemos. Se nos últimos tempos o selfcare teve direito a um rebranding (uma espécie de botox da alma), há 50 anos atrás servia de mote para comunidades marginalizadas reforçarem o seu valor face às adversidades sócio-económicas com que se debatiam. Era um símbolo político de resistência à opressão, não uma fotografia carregada de filtros e de hashtags de um smoothie com 20 superalimentos e 250 mil likes. E muito menos se equiparava a uma rotina matinal que começa com água e limão, seguida de três mantras e meditação. Quer dizer, pelo menos não aqui em casa. Aqui começamos por cuidar dos outros, nomeadamente por desligar o despertador à pressa, de olhos ramelosos injetando insulina num gato enquanto ele come distraidamente.

Como afirma Kisner, estas populares atitudes online isolam-nos, retiram o cuidado de si do seu sentido original, despegam as nossas ansiedades das condições que as criaram e obrigam-nos a focarmo-nos nos nossos dramas individuais. Como consequência, quebra-se a empatia e um sentimento real de comunidade, em vez de coletivamente encontrarmos maneiras de mudar as instituições responsáveis pelos problemas. Por outras palavras, dividir para conquistar.

Talvez conectarmo-nos ao eu e cuidarmos de nós primeiro tenha mais do que se lhe diga. Talvez nem tudo seja um milagre ou uma bênção do universo. Talvez os meus mantras não atraiam boa saúde nem dinheiro. Talvez eu não seja totalmente responsável pelos meus problemas. E talvez eu não queira ser feliz e beber da mesma fonte de bem-estar que a maioria. Posso querer cuidar dos outros primeiro, deixar que as minhas cicatrizes contem histórias menos felizes e não mascarar as dores com good vibes. Talvez eu não seja capaz de encontrar o bom em todas as situações, porque há algumas que são apenas injustas e más.

Ou então, quem sabe, Jon Stewart tivesse razão quando profetizava perguntando a Ehrenreich no final da entrevista: “Do you think there will be a happiness crash?”

 

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