“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.”

Esta frase de Simone de Beauvoir resume, para mim, um dos temas em discussão na opinião pública portuguesa desde a semana passada.

Long story short: a Porto Editora, uma das principais editoras de manuais escolares que, ano após ano, constam do Plano Nacional de Leitura, resolveu comercializar duas versões de um livro de atividades de tempos livres para crianças. As duas versões não são um nível 1 e um nível 2 dos exercícios. As duas versões foram criadas para “rapazes” e para “meninas”, em azul e cor-de-rosa, respetivamente, e com referência a temas diferentes. Posteriormente, a Porto Editora acolheu a recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e os livros em questão foram retirados dos pontos de venda.

Ora, a verdade é que vivemos numa sociedade patriarcal e sexista, onde os estereótipos de género são diariamente perpetuados. Se o combate à desigualdade salarial entre mulheres e homens e o combate à violência de homens contra mulheres (e vice-versa) são aceites por grande parte da população como lutas “justas e importantes” para que atinjamos a igualdade de género, isso já não acontece com a paranóia de se querer saber o sexo do bebé ainda antes de nascer – para se poder decorar o quarto, comprar roupa e brinquedos –, de se querer saber o sexo da criança quando anda na rua, quando vai para a escola, quando lê livros, quando escolhe uma profissão.

O género é construído cultural e socialmente. É a partir do nascimento (aliás, agora, bem antes dele) que a criança começa a ter o seu destino traçado. Partindo de uma análise que peca por binária e normativa (fazendo, desde já, o mea culpa), aqui fica um apanhado do que é ser-se homem e o que é ser-se mulher:

– Os bebés macho usam azul e jamais usarão rosa – muitas vezes, bastam pequenos apontamentos para ser confundido com uma bebé fêmea; têm o quarto decorado de azul, os brinquedos são azuis ou em tons da mesma “família”; os rapazes, a partir de certa idade, começam a perceber que não podem chorar, não podem ser emotivos, que têm de brincar entre eles e não com as raparigas; os rapazes têm brincadeiras fora de casa (lugar, por “natureza”, das raparigas): jogam à bola, correm, sobem às árvores. Se bonitos, é desde míseros meses de idade que são considerados um perigo para as raparigas (já não nos basta dizer que os nossos rebentos/ os rebentos dos outros serão um perigo para futuras mulheres, como também só poderão ser heterossexuais. Também desde cedo, caem nas malhas na heteronormatividade). Desde cedo que percebem – e internalizam – que, se querem vingar na sociedade de hoje em dia, devem ser fortes, desprovidos de emoções e másculos; que nenhuma característica tida por feminina os acompanhe!

– As bebés fêmea usam rosa, têm o quarto decorado de rosa e os seus brinquedos são rosa; a partir de certa idade, são vestidas de folhos, de vestidinhos e laçarotes, são brindadas com bonecos – de que têm de cuidar, como se fossem seus filhos –, com panelas de cozinha, com ferros de engomar. Brincam às casinhas, entre elas – não com eles –, ficam em casa. Se bonitas, vão dar trabalho ao pai – porque é ao macho da família, esse elemento de autoridade, a quem têm de responder com respeito. Desde cedo, percebem e internalizam que devem ser reservadas, que não podem falar alto nem dizer asneiras e que vieram ao mundo para cuidar dos outros. Vieram ao mundo para serem belas, recatadas e do lar. Até boa idade, são chamadas de meninas, numa quase perpétua infantilização do que é ser-se mulher.

Felizmente, nem tudo é tão preto no branco, e há muitas das coisas listadas acima que já se não praticam em muitos núcleos familiares. Todavia, são pequenas bolhas numa sociedade ainda completamente adormecida em sexismo e machismo, normalizado e perpetuado pelos nossos media.

Ainda estamos, efetivamente, a muitos anos de luta de conseguir atingir uma verdadeira igualdade de géneros, de aceitação de todos e todas como seres humanos, detentores e detentoras dos mesmos direitos, independentemente da sua fisiologia, da sua identidade de género, da sua raça, da sua classe social.

Talvez não fosse má ideia pararmos de categorizar e hierarquizar lutas. Há possibilidade de atuarmos em várias frentes. Questionarmo-nos e criticarmos papéis de género profundamente estereotipados pode andar de mãos dadas com o combate à violência de género, à objetificação e sexualização da mulher, à homofobia. Afinal – e no início de tudo – esta é a raiz da questão.

 

BÓNUS: O título deste artigo é a uma pequena adaptação de dois versos da letra da música
“Triste, Louca ou Má”, do grupo Francisco, El Hombre, que podem ouvir aqui.

 

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