You know what I should do?” Hoshino asked excited. “Of course,” the cat said. “What’d I tell you? Cats know everything. Not like dogs.

― Haruki Murakami, Kafka on the Shore

Não sei de que maneira vos explicar como tratar de um animal doente não fazendo de mim uma mártir, mas vou tentar esforçar-me por vos transmitir os dois lados da equação: aquele em que a sua doença exige muito de mim e o outro em que pondero até que ponto serei a pessoa indicada para o ajudar.

Há cerca de um ano e meio o Che, o meu gato de quase 12 anos, começou a perder peso. Comia, mas não engordava. Bebia água, mas nunca parecia ficar saciado. O pêlo agora baço, outrora brilhante e sadio. Caminhava de um modo estranho, patas traseiras apoiando-se demasiado no chão. Prostrava-se mais do que o habitual, mas quem tem gatos sabe que eles estão constantemente em modo standby, levantando-se apenas para satisfazer os seus interesses e necessidades, o que por vezes torna difícil distinguir preguiça de uma letargia patológica. Em silêncio ele mostrava-me como a sua saúde se degradava e eu pensava, ingenuamente: “É da idade”. Contra a intransigência do tempo não há muito a fazer e a passagem dos gatos na nossa vida é inequivocamente efémera.

Quando o levámos ao veterinário a resposta foi taxativa: é diabetes e é também imprescindível que os donos tenham disponibilidade para gerir a sua doença. Do diagnóstico às injeções diárias de insulina, duas vezes ao dia, às curvas de glicémia semanais (espeta a agulha na pata do gato, pica outra vez que o gleucómetro exige mais um sacrifício de sangue, repete três horas depois, sete vezes ao dia…), às oscilações entre hiper e hipoglicémias, ao medo de um coma diabético…. Foi tudo demasiado rápido e o tempo de ajustamento muito curto.

Confesso que tem sido uma provação. Desde a esperança numa eventual remissão aos cuidados empregues para garantir qualidade de vida ao Che, muito de nós se tem perdido. A liberdade de umas férias – ou de um fim-de-semana fora, vá. A inexistência de alguém que lhe possa administrar insulina na nossa ausência. Os horários de trabalho e de sono interrompidos para dar injeções a horas certas. O controlo necessário para evitar uma recaída ou antecipar uma remissão. As conversas que durante semanas parecem rondar sempre os mesmos temas – “parece-me que ele bebe muita água outra vez… reparaste se anda com mais apetite?… as agulhas já estão a acabar?… apareceu-lhe outra pelada, a glicémia deve estar novamente descontrolada…”. Os preços exorbitantes de consultas, exames, comida e medicação veterinária. A disponibilidade para dedicar tempo e energia a um só assunto que nos consome, absorve e reduz a cuidadores.

Já não somos os donos felizes cujas maiores preocupações passavam por garantir que o sofá se mantinha à prova de unhas de gato e a nossa roupa isenta de pêlos. Somos constantemente relembrados da necessidade da nossa presença, da nossa disponibilidade e do nosso sentido de abnegação. E por vezes, confesso, eu não sou a dona ideal. Não sei se tenho isso em mim. Sinto um cansaço e uma frustração constantes face ao investimento que faço na saúde do meu gato em função dos resultados que obtemos. O saldo nunca é positivo. A balança está sempre desequilibrada e nunca a nosso favor. Ainda não encontramos o ponto ótimo em que ele se encontra bem, estável, e isso reflete-se em nós. Ou será ao contrário?

Che

Mas ele parece-me feliz. Permite as injeções de insulina tranquilamente, quando precisamos de medir a glicémia vira a cabeça para não assistir à agulha espetando-se na almofada da pata e à gota de sangue que brota. A alimentação está garantida e a cama também. Que mais pode um gato pedir? E que posso eu esperar dele senão que esteja connosco por mais alguns anos?

Dizem que andamos a vida toda à procura do amor. Queremos encontrar uma definição absoluta que nos arrebate, mas esquecemo-nos que ele se imiscui pelas frestas. Não é perfeito, não é total. É plástico, resiliente e teimoso. Desponta na reorganização de prioridades. Na preocupação imediata com o outro. No inquestionável cuidado de alguém que não retribui como esperaríamos e mesmo assim não nos deixa desistir.

O amor surge sob várias formas. O meu surgiu sob a forma de um gato diabético.

 

Para ler este texto em inglês clique aqui.

Click here to read this post in English.

SaveSave