O que eu e um dos homens mais ricos do mundo temos em comum?

Go to any major chain supermarket and think about that tower of perfectly stacked, impeccable oranges or tomatoes, and understand that the supermarket by design has already figured and costed-out the fact — the immutable fact — that they will throw 30 percent in the garbage just so it will look cool.”

Anthony Bourdain, The New York Times

No seguimento da receita e da reflexão que vos trouxe no mês passado, quando vos contei um dos meus truques para ser mais minimalista e consciente na hora de cozinhar, desta vez decidi partilhar outro convosco. Se nessa altura vos falei de planeamento e de contenção na hora de acumular receitas e livros de culinária, hoje falo-vos de prazos de validade e de aproveitamento de desperdício.

Não sei se têm noção da quantidade de alimentos que são malbaratados por ano. Só em Portugal deita-se fora cerca de um milhão de toneladas de comida. Alguma porque não cumpre com normas e regulamentos de comércio e serviços, outra porque em casa acabamos por não conseguir comprar com conta, peso e medida e desperdiçamos por desconhecimento de opções.

Muitas vezes, ao cozinhar, não aproveitamos cascas, talos nem sementes. Por exemplo, podem lavar bem, secar e depois assar em temperatura não muito alta as sementes de abóbora bem temperadas. Conseguem logo um snack muito nutritivo para petiscar entre as refeições. Em alternativa, desidratem ou salteiem-nas num fio de azeite. A casca da mesma abóbora pode ser também consumida, desde que proveniente de produção biológica.

Outra alternativa passa por aproveitar as cascas de batata. A primeira vez que me serviram chips de batata num restaurante de petiscos da moda em Lisboa, ficámos todos a olhar para a travessa quando chegou à mesa. O silêncio foi quebrado por uma amiga minha, mais despachada, a qual agradeceu ao empregado as cascas e perguntou se a seguir podia trazer as batatas que tinham ido para o lixo. Ele não percebeu a piada.

Atualmente já sabemos que os prazos de validade são guias indicativos para as lojas comercializarem os seus produtos. Estes indicam o ponto mais alto de frescura do alimento, não necessariamente o dia em que deve ir para o caixote do lixo. Ao contrário do que a minha avó dizia, se comer um iogurte no dia seguinte ao fim do prazo, não vou a correr para a casa de banho porque ele acordou já estragado passada a data limite.

O Observador publicou há algum tempo um artigo muito interessante sobre esta temática, onde podem encontrar muito do que já vem sendo feito no mundo e a comparação com as iniciativas portuguesas. Aconselho vivamente a que o leiam e se informem devidamente porque, já se sabe, informação é poder. Na minha humilde opinião, faltou apenas mencionar neste artigo o trabalho fantástico que a Fruta Feia e a Refood fazem na gestão e redistribuição equitativa de alimentos que, caso contrário, acabariam no lixo.

O que mais gostei neste artigo do Observador – e nestas coisas é que eu percebo como sou uma visionária, empreendedora não reconhecida e desvalorizada, só me falta a t-shirt cinzenta para o reconhecimento público – é que eu e o fundador do IKEA temos um hábito muito semelhante de poupança. Quando vou ao supermercado também gosto muito de pesquisar as prateleiras dos produtos em fim de prazo de validade e trago-os frequentemente para casa, seja porque quero experimentar algo que assim é vendido mais barato, seja porque caso contrário estes irão para o lixo caso mais ninguém lhes pegue. Sim, continuam a ser muito estigmatizados, os pobres coitados dos alimentos em fim de prazo. Depois vou gerindo a sua qualidade, verifico se não têm cheiros ou consumo mais perto da data limite, caso seja algo fresco.

Foi assim que trouxe esta embalagem de tofu sedoso, que caso contrário não iria comprar porque não é um produto muito comum na minha cozinha, e aproveitei para fazer uma tarte deliciosa, vegan e evitando ao máximo o desperdício. Aproveitem que ainda há muito tomate fresco por aí, apesar de estarmos quase no natal. É que por mais que tentemos evitar com pequenos gestos a degradação do planeta – e devemos continuar a fazê-lo, especialmente agora – o aquecimento global existe e veio para ficar.

Tarte Vegan de Tofu

Receita adaptada do site Taifun-Tofu.

Ingredientes
  • 1 base de massa folhada
  • 1 tomate de cacho, cortado em fatias
  • 10 tomates cherry, cortados ao meio
  • 1 talo de aipo, cortado em pedaços pequenos
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 1 embalagem de tofu sedoso
  • óregãos frescos, picados
  • folhas de manjericão frescas
  • 1 colher de chá de ervas de provence
  • 1 colher de café de cúrcuma
  • Sal
  • Pimenta preta
Preparação

Ligar o forno nos 180ºC. Abrir a embalagem da massa folhada e usar o papel vegetal para esticar a massa numa forma de tarte. Picar com um garfo e levar ao forno 10m.

Entretanto preparar o recheio. Numa taça grande misturar bem o tofu com o azeite e os temperos utilizando uma batedeira manual. Adicionar o aipo e o tomate em fatias.

Retirar a massa do forno e recheá-la com esta mistura. Por cima colocar o tomate cherry cortado ao meio.

Levar a tarte ao forno cerca de 30m ou até que esteja dourada.

Bom Apetite!

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