Gosto de ler ficção, gosto de ler romances e gosto de ler estórias de amor.

Há 20 anos precisamente, em 1996, William Gibson publicou Idoru, traduzido e publicado em 1998 pela editora portuguesa Gradiva. Tratou-se do seu segundo romance.William Gibson é sobejamente conhecido pelos aficionados do género literário ciberpunk, géneroque, aparentemente, já não está na moda. É também amplamente conhecido por, no seu primeiro romance, Neuromancer (de 1984, e também publicado pela Gradiva) ter criado o conceito de ciberespaço: “ Uma alucinação consensual, vivida diariamente por biliões de operadores legítimos, em todas as nações, por crianças a quem se está a ensinar conceitos matemáticos. Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente: nebulosas e constelações de dados.”

Li Idorujá há alguns anos e escrevi sobre ele um texto académico experimental. [1] Volto agora ao romance.Afinal, uma boa estória não é aquela que nos intriga e interpela, que queremos saber como acaba, cujo final surpreende e de que nos lembramos de vez em quando?

O cenário é uma mistura de ciberespaço e de uma Tóquio nanotecnologicamente reconstruída após um violento terramoto, cidade na qual os edifícios parecem mudar de forma à medida que se olha para eles. Os dois espaços não se confundem porém, submergindo as personagens ou num ou noutro sem que aparentemente se sintam confundidas ou não situadas.

As principaispersonagens são:Rei Toei, umaidoru–ser artificial, um holograma, “cantora-ídolo” de ópera;Rez – ser humano, estrela rock; Laney –ser humano, especialista em análise de dados. Deixemos, se possível, o criador e o designer de Rei Toei em paz.

Rez é membro de uma banda de música rock. Um sucesso mundial. A sua vida é acompanhada pela Internet por milhares de clubes de fans espalhados por todo o planeta: o que veste, o que come, o que diz, com quem namora… todos os pormenores interessam.  Rez é, enfim, uma estrela rock convencional. Está apaixonado por Rei Toei e quer casar com ela. Rei Toei é bela, misteriosa, e uma idoru, totalmente artificialportanto. Tanto os fans quanto os agentes de Rez não estão satisfeitos com a perspectiva deste casamento. Ninguém compreende o que se passa. Afinal, ele vai casar com uma miúda japonesa que não existe! “E ele sabe, mas diz que nós não temos imaginação.” Assim, Laney é contratado pela empresa que gere a carreira de Rez para ajudar a compreender e explicar.Laney, um especialista em emaranhados de dados, é um “caçador intuitivo de padrões de informação: da espécie de assinatura que qualquerum inadvertidamente cria na Net”. É, intuitivamente, “um navegador nato, saltando de programa em programa, da base de dados para base de dados, de plataforma para plataforma”.

E, claro, como em qualquer romance série B, Laney vê-se envolvido numa relação sedutoramente perigosa. “Ele olhou para os olhos dela. Que espécie de potência de computação seria necessária para criar uma coisa assim, uma coisa que nos retribuía o olhar?”Ali, na estrutura da cara dela, na geometria interior das suas feições, jaziam histórias cifradas de fugas dinásticas, privações, terríveis migrações. Viu túmulos de pedra em íngremes prados alpinos, as lápides debruadas de neve. Uma fileira de póneis carregados, o bafo branco do frio, seguindo por um trilho sobre um desfiladeiro. Ao fundo, as curvas do rio eram distantes pinceladas de prata. Campainhas de ferro nos arreios ressoavam no crepúsculo azul.

Atenção… esclarece o criador de Rei Toei: a idoru é “o resultado de uma profusão de constructos elaborados, a que nos referimos como “máquinas de desejo”. Não no sentido literal…, antes imagine, por favor, agregados de desejo subjectivo.”

Ainda assim, Laney estremeceu.Os olhos da idoru, arautos de um país imaginário, encontraram os dele…e a idorusorriu, iluminada do interior. Laney cerrou os olhos, mas a imagem persistiu.Abriu-os perante a idoru, uma orla de peles à volta das suas feições. Estava a olhar para ele. Mas, depois, a imagem perdeu definição, confundindo-se com as texturas que corriam pelos recifes de dados, e ele deixou-se ir, deixou-se ir com aquilo, e sentiu-se passar pelo seu centro, exactamente pelo meio do seu ponto crucial, e sair pelo outro lado… Os dados da idoru começavam algures depois daquilo, mas começavam como algo com uma forma regular, deliberada, mas a que faltava complexidade. Mas nos pontos em que se aproximava mais dos dados de Rez, Laneyverificou Rei Toei tinha começado a adquirir essa tal espécie de complexidade. Ou um aspecto mais caótico, pensou. O lado humano. É assim que ela aprende.

Sob os dados de Rei Toei há uma subjectividade latente, permanente, presente e os seus olhos exprimem isso. Se os dados são bits, como digitalizar, transportar, reconstruir o subjectivo? O desejo, o sonho? Como é isso possível? Não, não é apenas uma criação de designers. Laney encontra uma resposta no turbilhão do ciberespaço, lá onde os dados de Rei Toei e Rez se encontram, onde eles se casam: aIdoru aprende o seu lado humano com os dados de Rez…

P.S. HatsuneMiku, cantora virtual/holograma e um fenómenoda actualidade, está longe de ser Rei Toei. E ainda bem.

 

[1] Gibson, William (1996). Idoru. Penguin Books:London. Tradução portuguesa publicada pela Gradiva em 1998.A edição de Neuromancerque tenho da Gradiva é a segunda, de 2004. O meu texto académico experimental foi publicado em Interact#9 em 2003.

As citações do romance Idoru e a recomposição pessoal da estória foram retiradas da edição portuguesa da Gradiva.

 

For the English version click here.