lit. “o pathos das coisas“; a consciência da impermanência das coisas e a doce tristeza associada a um conformismo perante a realidade da vida.

O perfeito desabrochar de uma flor é uma coisa rara” – diz Katsumoto a Nathan no filme The Last Samurai. Este reconhecimento da impermanência e transitoriedade da vida é uma das máximas centrais do budismo. Para os budistas, a vida rege-se por tês princípios fundamentais. Impermanência e insubstancialidade que causam uma terceira marca de existência, o sofrimento ou a insatisfação.

Quando a aceitação da impermanência e da insubstancialidade é elevada a uma sensibilidade estética, é criado um estado de espírito onde a pessoa é capaz de apreciar a efemeridade. Tal não significa que a impermanência seja bem-vinda ou celebrada. Muito pelo contrário, há ainda uma certa melancolia presente no conceito de mono no aware, isto é, uma tristeza pela transição e perda das coisas. No entanto, este pesar é apaziguado pela possibilidade de testemunhar a beleza da vida, mesmo que apenas momentaneamente.

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Mono no aware identifica esta transitoriedade como parte integral do belo. A flor de cerejeira – sakura -, cuja frágil eflorescência cativa a nossa atenção no primeiro desabrochar da primavera é o epítome da conceção de beleza intrínseco à noção de mono no aware. Beleza esta, subjetiva e não objetiva, isto é, um estado de ser ou uma experiência de coração e alma. Todavia, o desabrochar da flor de cerejeira mostra que a intensidade sensorial é inversamente proporcional à sua duração. Portanto, o expoente da sua beleza é apenas alcançado quando as pétalas começam a cair. Além do mais, é a evanescência da sua beleza que evoca o sentimento de melancolia e alegria presente em mono no aware, isto é, a apreciação da sua beleza é estimada pela consciência da sua brevidade, o que não aconteceria se tais flores fizessem permanente parte da paisagem.

Assim, para os japoneses, a beleza em mono no aware é esta apreciação delicada da melancolia mediante a ideia de que tudo tem um fim.  

Para melhor compreender o conceito de mono no aware (物 の 哀 れ), é necessário ir à origem etimológica. Aware (consciência) 哀 refere-se à dor sentida por uma emoção nostálgica e, mono 物 aos objetos e às coisas inanimadas – a melancolia ou o pathos das coisas. Desta forma, a expressão mono no aware diz respeito a um pesar de ver as coisas em constante mudança.

Um dos fundamentos básicos que até aos dias de hoje tem governando a sociedade japonesa, o mono no aware é também uma forma de nos encorajar à contemplação da vida e aceitar que tudo é transitório e sujeito a mudança.

 

BONUS: O conceito mono no aware está, igualmente presente em muitas formas de arte.
No cinema, com Yasujiro Ozu. Viagem a Tóquio e as suas memoráveis técnicas cinematográficas
é uma das referências com maior renome da estética subjacente a mono no aware. A acrescentar,
recentemente, Ryuichi Sakamoto lançou o álbum async, um registo humilde de como apreciar
as pequenas coisas da vida. 

 

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