O meu interesse pelas alterações climáticas é pessoal e pouco foi influenciado (pelo menos de modo direto) pela minha área de formação. Ao longo do curso, e mesmo depois deste, pouco ou nada aprendi sobre a relação entre psicologia e ambiente. Contudo, fiquei particularmente contente, quando um colega psicólogo/investigador me contou que no ACBS World Conference em Sevilha (um congresso de psicologia) houve espaço para uma discussão sobre “como podem os psicólogos e cientistas comportamentais contribuir para a mudança ecológica”. Não tendo estado neste congresso, fiz algum trabalho de pesquisa para saciar a minha curiosidade, e o meu objetivo aqui é partilhar um apanhado daquilo que encontrei.

Descobri que a Associação Americana de Psicologia (que dita as guidelines de investigação e intervenção em Psicologia) desenvolveu um grupo de trabalho sobre Psicologia e Ambiente que investiga:

  • Perceções sobre os riscos das alterações climáticas, nomeadamente a tendência das pessoas para minimizar futuros eventos e o papel da cultura no modo como as pessoas concebem e respondem a esses riscos;
  • Contribuições comportamentais para as alterações climáticas (como o crescimento da população, uso de energia) e influências psicológicas e contextuais destes comportamentos;
  • Impacto das alterações climáticas ou da percepção (e não ocorrência) das mesmas sobre a saúde mental e funcionamento psicossocial (incluindo estados de stress, ansiedade, apatia, culpa), e desenvolvimento de intervenções que ensinem estratégias de coping, adaptação e respostas saudáveis para lidar com a mudança do clima;
  • Impacto social e comunitário da mudança climática, disparidades socioeconómicas, implicações éticas e de justiça social;
  • Barreiras psicológicas que limitam a atitudes individuais e coletivas de combate às alterações climáticas;
  • Desenvolvimento de abordagens, sustentadas cientificamente, para compreender a natureza e os determinantes de comportamentos que afetam o ambiente e desenvolvimento de intervenções para alterar esses comportamentos;

Nota: informação retirada da Associação Americana de Psicologia.

Tudo isto será cada mais vez necessário, e espera-se que os psicólogos de cada país possam receber formação por parte das respetivas Ordens de Psicólogos (OP). Atualmente, os psicólogos portugueses podem inscrever-se em cursos sobre intervenção em catástrofe (i.e. humanitária, natural), proporcionados pela OP, onde aplicam o que aprendem na comunidade, o que tem sido particularmente necessário para o cenário de incêndios que assola o país. Trata-se, porém, de uma linha de intervenção essencialmente remediativa e não tanto preventiva.

Será isto suficiente num mundo em mudança?

A velocidade a que nos chega a informação relativa às alterações climáticas tem sido alarmante para aqueles que estão sensibilizados para esta questão. Há quem sinta ansiedade, impotência, raiva e há quem, para além disto, seja invadido por um ímpeto de coragem, excitação, motivação para procurar mais informação e perceber o que pode fazer.

Como a APA sugere, pelo seu interesse de investigação sobre as perceções e impactos da perceção das alterações climáticas, intervenções especificamente desenvolvidas para compreender e ajudar a gerir dificuldades e emoções associadas a estes temas poderão ser necessárias, tanto com foco remediativo (depois de acontecimentos potencialmente stressantes) como com foco preventivo (por exemplo, antes destes acontecimentos).

Por outro lado, é necessário também, ter em conta a população que não está sensibilizada para esta questão (e aqui o trabalho interdisciplinar com outras áreas como ciências do ambiente, ciências da comunicação, educação, jornalismo será fundamental).

Continua a ser uma fatia reduzida da população que dispõe de (ou está disponível para receber) informação necessária para compreender o que está a acontecer ao planeta, em que consistem exatamente as alterações no clima, que repercussões isso pode ter e em que medida um cidadão pode agir, a nível individual e auto-determinado, para ajudar a combater as alterações climáticas.

Como comunicar eficazmente informação relativa às alterações climáticas? Há alguma ciência por detrás disto, e o Center for Research on Environmental Decisions criou um guia que está disponível online e de modo gratuito: “The Psychology of Climate Change Communication”.

Finalmente, numa pesquisa breve sobre os preditores psicológicos do comportamento pró-ambiental percebi que há já um conjunto de trabalhos por parte de investigadores da psicologia, economia, marketing e educação. Estes analisam o papel de variáveis como traços de personalidade, ideologia política e valores nas escolhas sustentáveis, consumo de produtos ecológicos e atitudes pró-ambientais. Em modelos mais complexos, os autores testam ainda o efeito de interações entre aspetos individuais e contextuais (como exposição a campanhas de marketing, medidas legais relativas a questões ambientais etc.).

No próximo artigo enunciarei algumas ideias que resultaram destas pesquisas.

 

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