As ciências comportamentais desenvolvem investigações (com uma metodologia científica rigorosa) que permitem observar sistematicamente e descrever padrões ou unidades de comportamento humano num dado contexto. A partir destas observações é possível tentar compreender os fatores (individuais e contextuais) que antecedem (preditores) e sucedem (efeitos) esses mesmos comportamentos. Assim, compreendendo as relações que ocorrem os processos psicológicos num dado contexto de ação é possível influenciar a probabilidade de ocorrência de um evento.

Dito por outras palavras: se queremos aumentar a prevalência de atitudes e estilos de vida alinhados com valores como sustentabilidade e proteção do ambiente, os especialistas em comportamento precisam de estudar, e de divulgar junto de quem trabalha nestas áreas, que fatores predizem o comportamento desejado.

Algumas questões possíveis sobre o comportamento e suas leis:

Poderemos promover variáveis pessoais como comportamentos pró-sociais, consciência ambiental e valores pro-ambientais?

Os comportamentos pró-sociais ou de cooperação para o bem-estar geral são fundamentais para a nossa sobrevivência e possíveis de serem trabalhados em qualquer idade (tanto num contexto escolar, como laboral, como ocupacional). No que diz respeito a comportamentos pró-sociais alinhados com valores ambientais, estes resultarão de uma combinação de factores como preferências pessoais, educação sobre ambiente e sustentabilidade, traço de empatia etc. No entanto, com o intuito de promover estes comportamentos junto da comunidade, há algumas dicas que podem ser úteis para os ativistas ambientais. Nomeadamente, que a probabilidade de um comportamento ocorrer ou se repetir vai variar em função de:

  • Aspetos motivacionais (e.g., se a pessoa está em privação de um recurso como a água terá mais motivação e interesse em perceber o que pode fazer para a obter – esta privação mesmo não sendo real pode ser imaginada quando assistimos a testemunhos, ou nos informam sobre o que pode acontecer no futuro);
  • Reforço positivo ou recompensa (e.g., uma criança poderá desenvolver o hábito de reciclar e reduzir a sua pegada ecológica na medida em que é apreciada por isso e em que aprende a reforçar interiormente aspetos de uma identidade pró-ambiental);
  • Reforço negativo (quando algo que provoca emoções aversivas diminui ou desparece – e.g., quando alguém passa a pagar menos conta de água porque diminuiu o seu consumo da mesma);
  • Punições (e.g., quando uma empresa paga uma multa por violar critérios de impacto ambiental).

Que papel têm variáveis situacionais, como a exposição a campanhas de marketing verde, observação de fenómenos relacionados com as alterações climáticas, experiência educativa sobre as alterações climáticas?

Toda a prática educativa baseia-se no princípio de que a informação é condição necessária para a mudança. Contudo, sabemos que não basta dar informação. Ao transmitir conhecimentos devemos ter em conta vários aspectos, dos quais destaco os seguintes:

  • As pessoas têm uma tendência natural para fazer enviesamentos de confirmação (ou seja: para rejeitar/eliminar informação que contradiga as suas crenças e para selecionar a informação que as vais corroborar). Logo, se queremos apresentar um argumento potencialmente dissonante, será útil compreender o sistema de crenças do interlocutor, estabelecer uma ponte e acompanhar o nosso argumento de dados claros ou de evidências que o sustentem (Center for Research on Environmental Decisions).
  • Para além disto, vale a pena notar que o nosso cérebro tende a reduzir ou a distanciar-nos de eventos de longo prazo, dissociando no presente a consciência que temos de ter do que fazer para prevenir esses eventos (observe-se o exemplo de um fumador que, apesar de saber a probabilidade de desenvolver um problema cancerígeno continua a fumar). Assim, é fundamental tornar a informação mais experiencial no momento presente em que esta é transmitida. A informação que envolve vivência emocional ou que envolve vários sentidos (e por isso os vídeos são particularmente úteis) pode ser memorizada com mais facilidade e mobilizar mais facilmente para a ação .

Que papel desempenham fatores contextuais como o tipo de política aplicada no país de residência?

Para Biglan está claro que é necessário influenciar as ações das organizações (o que podemos fazer quando votamos, ou quando consumimos preferencialmente os produtos de uma empresa), porque por sua vez, são as organizações que influenciam os valores e as escolhas dos indivíduos (basta ver o que são trendsetters). O autor dá também o exemplo de enquadramentos legais: o efeito do aumento de impostos sobre produtos no consumo dos mesmos (e.g. sobre o tabaco) e também o exemplo de um programa de recompensa financeira a estabelecimentos comerciais por não venderem tabaco a adolescentes sobre a diminuição da venda ilegal. Refere ainda o papel de campanhas de marketing e informação dos media e a sua capacidade de moldar as escolhas dos cidadãos.

Há um consenso de que os humanos afetam o ambiente e têm possibilidade o influenciar. No entanto, é necessária uma estratégia comportamental com base científica que ajude a determinar como é que podemos levar, eficazmente, os humanos a comprometer-se com o combate às alterações climáticas. Com estas reflexões, espero ter ajudado a divulgar junto de quem tem interesse ou faz ativismo ambiental que existem já alguns trabalhos e recursos desenvolvidos para isso.

 

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